Alguns jovens da nossa Diocese e do nosso país iniciaram a Quaresma com uma peregrinação a Taizé, na França. Decidi, este ano juntar-me a eles alguns dias, com os mesmos objetivos, para partilhar a mesma experiência e fez-me muito bem.
Taizé é uma comunidade ecuménica monástica, constituída por irmãos, já com cerca de oito décadas, por onde passam anualmente várias dezenas de milhares de jovens e alguns adultos, à procura de Deus ou, pelo menos, de algo que possa preencher as suas vidas a partir de dentro. Não há ali comodidades, é tudo muito precário e bem diferente das condições em que passamos os nossos dias nos nossos lugares habituais.
Interrogo-me frequentemente acerca das motivações que levam os jovens até ali. As respostas são muitas: a diferença em relação a tudo o que se pode experimentar no dia a dia e noutros lugares e circunstâncias, o convívio e a amizade que cresce num lugar onde a vida muito simples é constituída por um conjunto de rotinas sempre iguais, a radicalidade das opções propostas… o facto é que, muitos que vão uma vez, querem voltar outras vezes e ficam com o sabor feliz de uma semana marcante para a vida.
Depois de repassar todas as possíveis motivações de carácter humano e social, incluído o gosto pela aventura e pela novidade, fica-me a impossibilidade de explicar o fenómeno somente por essa via. Lugares de convívio há muitos, possibilidades de encontro com a novidade, também, de coisas surpreendentes e atrativas para os jovens com intuitos comerciais se encarregam todas as plataformas de promoção e marketing.
Taizé cativa por proporcionar silêncio e oração, duas realidades tão distantes da vida dos jovens, filhos deste tempo, e da vida de todos nós, assoberbados como andamos com tantas coisas na corrida quotidiana. Oferece o que mais precisamos: um tempo vivido de forma gratuita, sem pressas e de encontro connosco e com Deus. Oferece o que é mais difícil de encontrar nas condições habituais em que se passa a nossa vida: a busca de sentido, o anseio pela dimensão espiritual da nossa existência, a procura de Deus como resposta para as nossas inquietantes perguntas.
É admirável como os jovens são capazes do silêncio naqueles tempos longos de encontro no espaço sagrado. Prolongam-no mesmo para além do previsto nos horários, porque aprendem a saboreá-lo, porque não é um silêncio vazio, mas pleno do sentido que lhe vem do canto repetitivo, da Palavra de Deus escutada, da comunhão com os outros na mesma humanidade e na mesma fé.

Para muitos jovens, apesar do percurso já feito na Igreja, na catequese, na educação moral e religiosa, a chegada a Taizé inaugura um tempo novo no desejo e na capacidade orante. O contexto ajuda muito, o ambiente criado, também, a idade própria para assumir um rumo na vida de forma consciente e responsável fornece o elemento decisivo. Quando se tem a graça de entrar na oração e se permite que o Espírito de amor reze em nós, opera-se uma poderosa transformação, fica uma experiência inesquecível.
A escuta da Palavra de Deus, a catequese bíblica em linguagem adequada, a partilha nos grupos, oferecem uma verdadeira escola para a vida. Também para muitos, a Bíblia entra ali pela primeira vez no espaço pessoal e diário como voz que conduz, guia, interpela, corrige, anima e traz a luz de Deus para a mente e o coração.
Em Taizé tem lugar de relevo a celebração do Sacramento da Reconciliação. A acompanhar uma experiência de encontro com Deus no silêncio e na oração, os jovens sentem o impulso para se aproximarem do sacramento da misericórdia e do perdão. A alegria de entrar no coração do Pai rico de misericórdia é maior do que toda a debilidade, problemas, dúvidas e pecados.
Esta peregrinação faz-me pensar que o caminho dos jovens na Igreja tem futuro e anuncia alvores de renovação da fé no Deus que nos acolhe, nos fala, nos acompanha, nos perdoa e nos oferece horizontes de eternidade. Agradeço aos jovens por nos ajudarem a refazer a esperança que vem de Deus.

