REPORTAGEM
«É preciso abrir horizontes»
Na zona do Almegue, na quinta de Santo António, encontra-se um centro de formação laical. Para os mais distraídos, a casa que se encontra entre o Fórum Coimbra e uma nova urbanização, é espaço de oração e formação das Servas do Apostolado, um Instituto Secular que nasceu do sonho de Isabel Matias, na década de 50.

Coimbra foi o “berço” deste instituto que “já teve muitas escolas, de diferentes níveis de ensino desde o pré-escolar e cursos profissionais na área da educação familiar rural e de Educadoras de Infância” mas, atualmente, vive um momento de renovação.
“É preciso abrir horizontes” é uma frase da fundadora, Isabel Matias, e reproduzida num painel de uma parede do salão que serve para grandes reuniões ou celebração da Eucaristia.
O sol inundava o espaço exterior de uma casa preparada para receber grupos, seja de jovens ou leigos adultos, para momentos de formação, retiros e encontros informais onde a procura da fé é o mote.
Rosário Virgílio e Alzira Santos fazem uma visita guiada ao Correio de Coimbra, mostrando o espaço, que era uma antiga quinta de cultivo, com pomar e vinha. Hoje, os terrenos já não existem mas a casa mantém-se com dormitórios, cozinha, capela, salão, uma biblioteca e até um pequeno espaço museológico.
“Com os dias de tempestade que assolaram Coimbra, também esta casa sofreu algumas infiltrações que agora estamos a reparar e cuidar”, explica Maria do Rosário, de 67 anos.
A professora de EMRC, já aposentada, vai mostrando os espaços que servem a “quem vem à procura de silêncio e de aprofundamento de fé”.

“No espaço exterior temos alguns elementos muito nossos que quisemos que identificassem e colorissem as paredes para, quem vem, poder interpelar”, indica, mostrando os desenhos pintados.
Já Alzira Santos, de 73 anos, carrega um molho de chaves e vai abrindo as portas dos espaços, como se quisesse mostrar toda a dinâmica do Instituto que, em 2022, celebrou 70 anos.
“Nessa altura quisemos organizar algumas peças que vieram das nossas casas, que fomos fechando, e assim nasceu o espaço museológico, com imagens, instrumentos musicais, ferramentas e utensílios usados nas aulas dadas às nossas alunas”, recorda.
Atualmente, além de Sede do instituto é também “Centro de Formação Laical”, acolhendo encontros vários e é ali que se reúnem as Servas do Apostolado, uma vez por mês, em assembleia geral, “num dia de oração e convívio entre todas as Servas”.
ENTREVISTA
«Servir e dar a vida»

O Instituto Secular Servas do Apostolado tem mais de 70 anos de história. Através de Rosário Virgílio e Alzira Santos mergulhamos numa vocação que não se esconde em conventos, mas que está no mundo como fermento na massa.
Como nascem as Servas do Apostolado e quem foi a vossa fundadora?
Rosário Virgílio: A nossa fundadora, Isabel, foi uma mulher leiga e militante da Ação Católica, o que nos enche de orgulho. Ela era “cheia de garra” e tinha uma visão clara: promover as pessoas, especialmente as mulheres, em meios rurais. Depois de várias experiências em congregações religiosas onde não se identificou, foi em Coimbra que estruturou este projeto. Ela foi pioneira ao abrir escolas de educadoras rurais e de infância quando o Estado ainda não tinha essas valências.
Alzira Santos: Eu cheguei a trabalhar no Centro Social Nossa Senhora da Anunciação, aqui em Coimbra, que a Isabel fundou para crianças desfavorecidas. Era um trabalho de inovação, com música e ginástica, focado na dignidade daquelas crianças.

Para quem não conhece, explique-nos o que é um Instituto Secular? O que vos distingue?
Rosário Virgílio: Não somos freiras, somos um Instituto Secular. A grande diferença é que não temos vida comum obrigatória. Fazemos os mesmos votos — pobreza, castidade e obediência — mas vivemos nas condições comuns das pessoas: na nossa casa, sozinhas ou com a família de sangue. Pio XII deu-nos “cidadania” na Igreja em 1947, e a nossa fundadora percebeu logo: “é por aqui”.
Vivemos no mundo, temos os nossos empregos. Eu fui operária fabril antes de estudar Teologia; a Alzira foi professora. Temos enfermeiras, administrativas, animadoras sociais… A nossa consagração é vivida no “meio do mundo”, sem sinais externos que nos afastem do comum das pessoas.
O Instituto tem vindo a fazer, felizmente, um caminho de afirmação da secularidade, portanto, não somos de facto religiosas neste sentido, porque não temos vida em comum, fazemos os mesmos votos que as religiosas, daí que a nossa consagração seja efetiva, uma consagração religiosa. Vivemos, exatamente, nas condições comuns, do comum das pessoas, ou na família, e algumas de nós vivem na sua família de sangue.
Temos algumas servas que estão institucionalizadas em lares de terceira idade, porque temos esta visão de que a secularidade é para ser vivida até ao fim. Conscientemente, não criamos estruturas para apoiar as idosas, mas não deixamos de as apoiar na mesma, com a responsabilidade histórica de cuidarmos das pessoas que aceitaram o desafio de serem membros deste instituto.
Tivemos uma serva que fez os votos perpétuos, há pouco tempo, a Magda, temos outra no segundo ano do discernimento, por isso dentro do deserto há estes pequeninos sinais de esperança.
Não somos freiras, somos um Instituto Secular.
Rosário Virgílio

E a Alzira, como conheceu o instituto?
Alzira Santos: Eu era catequista aos 14 anos e adorava bailaricos, não faltava a uma festa… Mas, quando a festa acabava, ficava um vazio. O que me preenchia a mente durante a semana era pensar em como ajudar os meus meninos da catequese. Apareciam na minha aldeia umas irmãs mas isso eu sabia que não queria ser… Estava a namorar e quando tinha 17 anos, num encontro de catequistas, conheci a Josefa, que é um dos membros do Instituto, e ela falou-nos disso.
Decidi aos 18 anos vir para Coimbra, saber mais sobre as Servas do Apostolado. Tive medos e saudades, mas quando a minha formadora me deixou ir a casa “matar saudades”, durante um mês, percebi em oito dias que queria mesmo era estar aqui. Aos 21 anos, no dia dos meus primeiros votos, senti que estava a “casar” para sempre.


Rosário, no seu caso, ingressou no curso de Teologia, a ideia surgiu como uma paixão ou pensou em ser religiosa?
Rosário Virgílio: Nunca para ser religiosa de hábito, a vida comunitária tradicional não me agradava. Quando conheci os Institutos Seculares, apaixonei-me. Se voltasse a escolher, escolhia o mesmo. Não me anuncio a mim mesma; anuncio Jesus Cristo no hoje da história.
Ser Serva do Apostolado é estar em plena inserção no mundo, mas de uma forma consagrada, nós afirmamos a nossa consagração batismal através dos votos. E procuramos ser, no meio do mundo onde estamos, sinais visíveis do Evangelho.

Atualmente são 22 Servas espalhadas por Portugal (Coimbra, Funchal, Leiria e Santarém). Como veem o futuro?
Alzira Santos: Com muito entusiasmo! Às vezes dizem que não somos conhecidas, mas a culpa também é nossa. Temos de nos dizer pelo que vivemos, não pelas obras ou paredes. Se o nosso estilo de vida não provocar questões nos outros, algo está errado.
Rosário Virgílio: Estamos a atualizar o carisma. Hoje focamo-nos muito na formação de outros leigos e no “ensinar a rezar”. Temos redes sociais, um jornal trimestral e até o sonho de um podcast sobre oração. Queremos ajudar as pessoas a consciencializar-se de que a vida cristã, por si só, já é uma vocação.
Nomeadamente estamos ao serviço apostólico e missionário, fazemos algumas ações de formação de outros leigos e estamos ao serviço de ações pontuais que nos pedem, seja nas paróquias e grupos, como também na promoção de ações aqui na nossa casa, no Almegue.
Eu gostava de ter essa fórmula de ser entusiasta e isso procuro ser, naturalmente, não faço esforço para ser entusiasta na divulgação desta vocação da secularidade consagrada, porque é uma vocação que eu estou plenamente convencida que é tão atual hoje como quando surgiu.
E penso que se algumas pessoas tivessem conhecimento, havia outro tipo de adesão. Eu costumo dizer que não vivo preocupada com isso, porque esta obra não é minha. Esta obra é de Deus e, como tal, eu só procuro servir este projeto que o mundo precisa de conhecer: o plano de salvação que Deus tem para a humanidade.
Se o nosso estilo de vida não provocar questões nos outros, algo está errado.
Alzira Santos


No espaço exterior desta casa têm um painel que mostra o ato de lavar os pés, muito simbólico neste tempo de Quaresma. O que significa isso hoje?
Rosário Virgílio: Significa o serviço aos que mais precisam e às vítimas de violência. Rezamos e agimos pelos escravizados, pelas mulheres exploradas. Lavar os pés ao mundo é despojar-se do que está a mais e erguer os oprimidos.
Alzira Santos: E começa “dentro de casa”. Lavar os pés às nossas irmãs mais idosas do Instituto ou à minha própria irmã de sangue, que é dependente. É dar a vida nos pequenos gestos, com paciência e sem perguntas, um bom itinerário para o tempo de Quaresma e para toda a vida.

