Janeiro carrega o peso das expectativas, o frio que teima em ficar e as tempestades que nos lembram a nossa pequenez. Por definição, o mês dos começos, das agendas em branco e das promessas de mudança. No entanto, o ânimo necessário nem sempre se encontra no frenesim das resoluções grandiosas, mas na simplicidade do tempo partilhado.
E onde ainda partilhamos o tempo? Seja em casa, na escola, no local de trabalho ou de convívio há um lugar que se destaca pelo tempo e atenção que damos: a mesa.
A mesa é, talvez, o lugar mais sagrado da minha rotina, ainda que o tempo imponha, muitas vezes, o contrário. É à mesa, entre o aroma do café e a partilha do pão, que a família se reconhece. Ali, os olhos cruzam-se sem o filtro dos ecrãs, as alegrias são multiplicadas e o cansaço do dia é diluído na escuta recíproca.
Como nos recorda o cardeal José Tolentino Mendonça na sua obra “O Elogio da Sede”, a espiritualidade não está separada da nossa humanidade mais básica. Ele escreve: “A vida espiritual não é uma alternativa à vida real: é a vida real vivida com uma profundidade maior”. Esta profundidade maior de que o autor fala manifesta-se precisamente na atenção que dedicamos aos outros, por exemplo numa refeição.
Para este primeiro mês do ano, o convite é que não deixemos que a pressa de “fazer” atropele a importância do “ser”. Sentei-me à mesa com o chef João D’Eça Lima, do Refeitório Maior, e ali conversámos abertamente sobre aquele espaço histórico e a história que quer contar a cada dia, a cada refeição, a cada grupo, a cada comensal. A essência de estar à mesa, de partilhar uma “refeição é refazer a energia”.
Que saibamos transformar cada refeição num pequeno sínodo doméstico — um espaço onde se escuta o Espírito através da voz do outro, onde se recupera a força para caminhar e onde a hospitalidade começa. Que tal sentar à mesa?

