Devemos ser criados para a verdade, não apenas a verdade intelectual, mas a moral e a espiritual. “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará.” (Jo 8,32). A frase é conhecida, repetida, citada, mas raramente levada a sério. A verdade de que fala Cristo, que todos procuramos, não é um slogan, nem um instrumento de poder moral sobre os outros.
Conhecer a verdade permite-nos compreender melhor o mundo, reconhecer o outro na sua dignidade e dar coerência à nossa vida. No entanto, entre esta vocação para a verdade e a forma como frequentemente usamos a curiosidade existe uma distância demarcada e muitas vezes confundimos verdade com (des)informação.
Nunca tivemos acesso a tantos dados e nunca soubemos tanto sobre todos. Mas, paradoxalmente, talvez nunca tenhamos estado tão longe da verdade. O mundo digital transformou a curiosidade num mercado de consumo rápido, de fragmentos da vida alheia. A novidade alimenta conversas vazias e vale mais do que a profundidade das coisas; onde o número de likes e comentários imediatos substituem o silêncio que amadurece o juízo. Perdemos sabedoria!
A figura de Herodes Antipas permanece inquietantemente atual. Quis ver Jesus por curiosidade, não por conversão. Desejava o extraordinário, não a verdade e quando Cristo esteve diante dele, nada se alterou. É possível estar frente-a-frente com a Verdade e permanecer intacto.
O mundo de hoje mostra-nos que a manipulação da verdade raramente se apresenta como mentira, mas antes como recorte, como “prints” manipulados, como frases descontextualizadas que facilitam o mexerico e a popularidade. A tecnologia amplificou a exposição, mas não formou o discernimento. E o “publicar” tornou-se sinónimo de revelar; e revelar é tido como sinónimo de coragem. Mas há revelações que não libertam — apenas ferem. A verdade utilizada como arma.
A ética determina diferenciar a compreensão da exposição. “Nem tudo o que é verdadeiro deve ser dito”. A tradição cristã sempre soube que a verdade caminha com a caridade. Sem Amor, a Verdade transforma-se numa arma; sem Verdade, o Amor dissolve-se. A maturidade espiritual permite-nos saber quando falar e quando guardar.
Quando alguém partilha um segredo, entrega algo frágil e íntimo. A forma como o acolhemos e o guardamos revela quem somos. A revolução nos dias de hoje pode não ter flores, mas necessitar de atos revolucionários feitos de silêncios e de confiança. Num mundo que monetiza a intimidade, proteger o que nos é confiado é um gesto raro e valioso.
A verdade não precisa de montra para existir, mas de liberdade interior e valores poderosos.Talvez o nosso maior desafio não seja aprender a saber mais, mas aprender a respeitar melhor aquilo que não nos pertence conhecer. É preciso libertarmo-nos da concupiscência da novidade fácil e recuperar a coragem de procurar uma verdade que nos desinstale a app. Só assim a curiosidade deixa de ser dispersão e se torna caminho de sabedoria. Porque a verdade que liberta não é a que expõe o outro, mas antes a que nos converte a nós.

