- Liturgia

Três tentações

I Domingo da Quaresma (Mt 4, 1-11)
– Dehonianos

Dehonianos - Comentário à liturgia dominical

Jesus, depois do seu batismo no rio Jordão, foi conduzido pelo Espírito para o deserto, o lugar da “prova”, a fim de “ser tentado pelo Demónio” (vers. 1). Os “quarenta dias” que Jesus passou nesse lugar (vers. 2), devem ser postos em relação com os “quarenta anos” que os hebreus passaram no deserto, depois de terem sido libertados do Egito, e onde tiveram de fazer opções entre Deus e o mal, entre a liberdade e a escravidão. É importante a indicação de que Jesus é conduzido pelo Espírito de Deus, esse Espírito que desceu sobre Ele no momento em que foi batizado: será o mesmo Espírito que O sustentará ao longo da sua missão e que Lhe dará a força para fazer escolhas acertadas, na linha do projeto de Deus.

O tempo que passou no deserto, a refletir sobre a missão que o esperava, foi para Jesus um tempo de prova, de decisões, talvez de purificação das razões que o moviam. A figura do “diabo” corporiza, nesse contexto de escolhas, os caminhos errados que também estão à disposição de Jesus. O cenário é montado à volta de um diálogo em que Jesus e o “diabo” debatem as diversas possibilidades que se apresentam, numa luta dialética feita a partir de citações das escrituras sagradas. A catequese sobre as opções de Jesus aparece em três quadros ou “parábolas”.

A primeira “parábola” (vers. 3-4) sugere que Jesus poderia ter escolhido um caminho de realização material, de satisfação de necessidades materiais: “se és Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pães” (vers. 3). É a tentação – que todos nós conhecemos muito bem – de fazer dos bens materiais a prioridade fundamental da vida. No entanto, Jesus sabe que “nem só de pão vive o homem” e que a realização do homem não está na acumulação egoísta dos bens. A resposta de Jesus cita Dt 8,3 e sugere que o seu alimento – isto é, a sua prioridade – não é um esquema de enriquecimento rápido, mas é o cumprimento da Palavra (isto é, da vontade) do Pai.

A segunda “parábola” (vers. 5-7) leva-nos até ao “pináculo do templo” de Jerusalém, situado no canto sudoeste do edifício, onde os frequentadores do santuário podiam desfrutar de uma magnífica vista sobre o vale do Cedron. As palavras do “tentador” (“se és Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo, pois está escrito: ‘Deus mandará aos seus Anjos que te recebam nas suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra’”) sugerem que Jesus poderia ter escolhido um caminho de êxito fácil, mostrando o seu poder através de gestos espetaculares e sendo admirado e aclamado pelas multidões (sempre dispostas a deixarem-se fascinar pelo espetáculo mediático dos super-heróis). Jesus responde a esta tentação citando Dt 6,16, e sugere que não está interessado em utilizar os dons de Deus para satisfazer projetos pessoais de êxito e de triunfo humano. “Não tentar” o Senhor Deus significa, neste contexto, não exigir de Deus sinais e provas que sirvam para a promoção pessoal do homem e para que ele se imponha aos olhos dos outros homens.

A terceira “parábola” (vers. 8-10) coloca-nos num “monte muito alto” não identificado, onde se podem ver “todos os reinos do mundo e a sua glória”. Não é necessário dizer que não existe nenhum monte no mundo onde seja possível contemplar tal panorâmica. Estamos, portanto, no domínio da catequese. O quadro sugere que Jesus poderia ter escolhido um caminho de poder, de domínio, de prepotência, ao estilo dos grandes da terra. No entanto, Ele sabe que a tentação de fazer do poder e do domínio a prioridade fundamental da vida é uma tentação diabólica; por isso, citando Dt 6,13, diz que só Deus é absoluto e que só Deus deve ser adorado. O poder que corrompe e escraviza nunca será, para Jesus, uma escolha a ter em conta.

As três tentações aqui apresentadas não são mais do que três faces de uma única tentação: a tentação de prescindir de Deus, de escolher um caminho de egoísmo, de orgulho e de autossuficiência, à margem das propostas de Deus. Mas, para Jesus, ser “Filho de Deus” significa viver em comunhão com o Pai, escutar a sua voz, realizar os seus projetos, cumprir obedientemente os seus planos.

As respostas de Jesus ao “tentador” mostram claramente qual é o caminho que Ele, desde o início, se propõe seguir. Jesus venceu o combate contra o mal. Ele não quer viver para acumular bens, para dominar sobre pessoas, para exibir em seu proveito a grandeza de Deus. Jesus propõe-se servir o projeto de Deus, sem se desviar um milímetro da vontade do Pai. Ao longo da sua vida, diante das diversas “provocações” que os adversários Lhe lançam, Jesus vai confirmar esta sua “opção fundamental” e vai procurar concretizar, com total fidelidade, o projeto do Pai.

Israel, ao longo da sua caminhada pelo deserto, sucumbiu frequentemente à tentação de ignorar os caminhos e as propostas de Deus. Jesus, ao contrário, venceu a tentação de prescindir de Deus e de escolher caminhos à margem dos projetos do Pai. De Jesus vai nascer um novo Povo de Deus, cuja vocação essencial é viver em comunhão com o Pai e concretizar o seu projeto para o mundo e para os homens.

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