Na liturgia deste Domingo VI do Tempo Comum, continuamos a leitura do chamado “Sermão da Montanha” de Jesus, apresentado por São Mateus no Evangelho; e somos confrontados com a ideia de que todas as orientações que a Palavra de Deus nos dá são luz para iluminar o nosso caminho e para assim chegarmos melhor até Ele. A lei de Deus é um norte, um auxílio para nós nos orientarmos e vivermos interiormente ordenados. Esta lei não destrói a nossa liberdade, mas é uma ajuda no caminho e faz-nos perceber que Deus sempre caminha connosco. Jesus levou a lei à perfeição, ensinando a entender o seu sentido profundo e a observá-la no íntimo do coração, no espírito e não apenas na letra. Depois das “Bem-Aventuranças”, que são o Seu programa de vida, Jesus proclama a nova Lei. No texto do Evangelho deste domingo, lemos que Ele não veio destruir a antiga Lei, mas dar-lhe a sua plenitude: Ele restaura, aperfeiçoa e eleva à plenitude os preceitos do Antigo Testamento. Com isto, Jesus faz-nos refletir sobre qual deve ser a nossa atitude, como cristãos, diante da Lei de Deus e sobre as implicações que ela tem nas nossas opções de vida.
Jesus pede-nos que aperfeiçoemos a Lei, na nossa vida, mas na observância do coração. Jesus chama-nos a levar a Lei à sua plenitude, não apenas no cumprimento exterior, mas sobretudo na atitude interior do coração. Não basta evitar o homicídio físico; é igualmente necessário rejeitar tudo aquilo que fere o outro interiormente, como o desprezo, a inveja ou a humilhação. Do mesmo modo, não chega abster-se do adultério enquanto ato: é preciso também purificar o coração e afastar desejos desordenados, sendo fiel ao compromisso matrimonial. No casamento, não se vive centrado em si próprio, mas numa entrega mútua e total, assumida como vocação em que os esposos enfrentam juntos dificuldades, sofrimentos e crises.
Viver a Lei desta forma não significa reduzi-la a um conjunto de práticas exteriores ou rituais, mas exige uma conversão interior constante, que se traduza em amor, justiça, misericórdia e relações fraternas vividas com simplicidade e confiança, como as de uma criança.
Jesus não veio eliminar a Lei, mas conduzi-la à sua realização plena. Depois de proclamar os princípios fundamentais da nova Lei nas Bem-Aventuranças e de as apresentar como um programa de vida para o cumprimento da Lei, Ele aprofunda o verdadeiro sentido dos mandamentos entregues por Deus a Moisés. Já não se trata apenas de os cumprir de modo exterior, mas de viver o seu espírito autêntico de amor e justiça, aplicando-o à vida, à busca da felicidade, ao amor conjugal e à verdade. Evitar apenas os atos contrários à Lei não é suficiente: é necessário, também, afastar pensamentos e desejos maus, pois quem os permite já falhou no íntimo do seu coração. A antiga Lei é superada e aperfeiçoada, também, através de uma atenção cuidadosa à pureza interior.
A grande novidade trazida por Jesus está, igualmente, no facto de Ele próprio cumprir os Mandamentos no amor do Pai, pela força do Espírito Santo que habita n’Ele. Pela fé em Cristo, também nós podemos abrir-nos à ação do Espírito Santo, que nos capacita a viver o amor divino. Desta forma, cada mandamento torna-se uma exigência de amor e uma condição de vida, convergindo todos num único preceito: amar a Deus de todo o coração e ao próximo como a si mesmo. Como recorda São Paulo, o amor é a plenitude da Lei.
Surge então a pergunta: como vivemos hoje os Mandamentos? Limitamo-nos a cumpri-los por obrigação, à maneira do Antigo Testamento? Fazemos determinadas coisas apenas porque “é lei”? Por exemplo, vamos à Missa só porque é um preceito? Jesus diz-nos: se a nossa justiça não ultrapassar a dos mestres da Lei e dos fariseus, não entraremos no Reino dos Céus. A nossa obediência deve ser expressão sincera e profunda do amor a Deus. Peçamos, por isso, a graça de viver fielmente os mandamentos, pois, como ensina o livro de Ben Sira, quem escolhe guardá-los encontra neles proteção e vida.
Diante do ser humano estão o bem e o mal, a vida e a morte, e cada um receberá conforme a sua escolha. A vida ou a morte eterna são consequência da opção pessoal de cada um, pois o homem é livre e responsável pelos seus atos.
Peçamos a Jesus Cristo a graça de amarmos muito e de sermos sempre instrumentos de vida e não de morte, de união e não de divisão, testemunhas da verdade e não da incerteza ou da mentira.

