«Sentimo-nos completamente em casa»

O cenário é de desconforto aparente, dormem no chão, longe das comodidades de casa e em pleno tempo de férias, os estudantes universitários fizeram Missão País, dinâmica que nasceu há mais de 20 anos no movimento de Schoenstatt e se espalhou por várias Faculdades do país.
É o terceiro ano que estiveram na Pocariça, local a que já chamam “casa”. Os sorrisos dos chefes de missão, Vicente Graça e Carmo Cunha, desmentem qualquer sacrifício, são alunos do 3º ano de Direito em Lisboa e este ano trocaram a ação direta no terreno pela logística e coordenação.
Vicente Graça e Carmo Cunha, é a vossa primeira vez como chefes da Missão País?
Carmo Cunha: Sim, ambos estamos no nosso terceiro ano de missão, aqui. Nós abrimos a missão na Pocariça há três anos e agora viemos fechá-la. É a nossa primeira vez como chefes.
Vicente Graça: Confesso que não estava muito à espera de ser chefe. Até gosto mais de “missionar” diretamente, mas ser chefe é uma experiência muito diferente e muito boa. O chefe geral do ano passado, o Jaime, dizia-me que a grande alegria era chegar às comunidades e ver a alegria dos missionários a darem-se aos outros. Ver o que preparámos no papel, nos Excel’s, a concretizar-se com caras e nomes, traz todo o sentido.
Nós abrimos a missão na Pocariça há três anos e agora viemos fechá-la.
Carmo Cunha
Como chefes, estão mais atentos à evolução dos missionários durante esta semana?
Vicente Graça: Com certeza. Antes da semana começar, tínhamos funções logísticas. Agora, estamos atentos a tudo, a “apagar fogos” e a acompanhar o plano geral.
Carmo Cunha: Nós circulamos por todas as comunidades, visitamos todas, desde a creche ao lar, a equipa do porta a porta, escolas, a comunidade do teatro e aqui das obras, onde vai nascer um novo posto de enfermagem na Pocariça… Enquanto os missionários veem apenas o que se passa no seu grupo de sete ou oito pessoas, nós conseguimos ver a evolução de todos.
Vicente Graça: E além disso na oração da manhã rezamos sempre pelo dia, pelas pessoas que vamos encontrar e depois deixamos palavras de ânimo a todos, porque só nos reencontramos em grupo grande ao fim do dia.

Três anos depois, o último de missão aqui, que transformações notam na comunidade e na forma como vos veem?
Vicente Graça: Quando vim no primeiro ano não fazia a menor ideia onde era a Pocariça! Foi tudo uma novidade.
Carmo Cunha: Esta comunidade é das mais acolhedoras que já vi. Não passamos um dia sem que nos deem tudo: comida, aquecedores, mantas… Eles querem mesmo receber bem. E este ano, por ser o último, nota-se que querem aproveitar ainda mais tudo o que fazemos.
Vicente Graça: Houve frutos concretos. O presidente da Junta contou-nos estes dias que a Missão País impulsionou o movimento da Mãe Peregrina aqui, imagem que nos acompanha em cada comunidade de Missão. Agora há cerca de 100 famílias na comunidade a acolher a Mãe Peregrina em suas casas. Criou-se uma amizade profunda e qualquer pessoa na rua sabe o nome dos missionários antigos. Sentimo-nos completamente em casa.

O tema deste ano é “A Paz seja convosco”. É essa a mensagem que querem deixar?
Vicente Graça: Sim. Este tema foi escolhido pela equipa nacional de espiritualidade e faz todo o sentido, não só pelas guerras no mundo, mas pelas guerras que vivemos dentro de nós. Escolheram o “seja” porque é um verbo que permanece, é quase eterno. Queremos passar a ideia de que é possível ter paz mesmo no meio da “trapalhada” das nossas cabeças.
Mas como se encontra paz no meio do rebuliço de uma missão em tempo de férias?
Carmo Cunha: É uma semana boa para parar e pensar, o que é essencial hoje em dia, pois estamos sempre cheios de distrações. Aqui, somos convidados a ganhar paz no desconforto. Estamos a explorar muito o tema das fragilidades e das dúvidas, tal como São Tomé no Evangelho. Convidamos os jovens a encararem as suas fragilidades e a rezarem sobre elas.


Convidamos os jovens a encararem as suas fragilidades e a rezarem sobre elas.
Carmo Cunha
Além da companhia, o que é que sentem que oferecem a esta comunidade?
Carmo Cunha: Oferecemos uma “lufada de ar fresco”. Esta é uma comunidade um pouco envelhecida que, se calhar, não está habituada a ver tantos jovens a acreditar em Deus e a querer viver a fé, com este entusiasmo e alegria.
Vicente Graça: Aqui deixamos a marca da nossa fé. Esta comunidade só costuma ter missa ao domingo e à quinta-feira. Com a nossa vinda, como temos um sacerdote que nos acompanha, há missa diária e a igreja está sempre completamente cheia, desde os mais novos aos mais velhos. Vê-se a felicidade deles. Além disso, passamos por todo o lado: creches, secundário, lares, hospitais… A nossa presença, a nossa cruz, toca as pessoas de maneira diferente. No hospital, por exemplo, as pessoas estão mais frágeis, mas querem muito conversar e rezar connosco.

Aqui deixamos a marca da nossa fé.
Vicente Graça
Que mensagem deixariam a quem tem dúvidas sobre participar na Missão País?
Vicente Graça: Arrisquem! Experimentem. Esta semana pode parecer retirada das nossas férias, mas bem vivida consegue ser a melhor semana do ano.
Carmo Cunha: É quase contraditória a alegria que se vive mesmo no desconforto. Não estamos em nossa casa, dormimos no chão, mas saímos daqui transformados. Não há uma única missão no país onde não saiam cerca de 60 jovens transformados no final da semana.
Não há uma única missão no país onde não saiam cerca de 60 jovens transformados no final da semana.
Carmo Cunha
TESTEMUNHOS

Salvador Pita Negrão cumpre o seu terceiro ano de missão na Pocariça. Depois de dois anos “reservado” no teatro, o futuro advogado trocou o palco pelo “porta a porta”, confrontando-se agora com a solidão e a riqueza das histórias de quem vive na freguesia.
Salvador Pita Negrão, natural de Lisboa e ligado ao movimento de Schoenstatt, um dos pilares fundadores da Missão País, confessa que, quando chegou à Pocariça pela primeira vez, não sabia sequer onde ficava a localidade. Três anos depois descreve como uma das experiências mais bonitas da sua vida.
Embora a experiência tenha sido positiva na comunidade do teatro, o jovem reconhece que estava mais “preservado” do contacto direto com a população e, este ano, o desafio é o porta a porta, uma atividade que o coloca no coração da comunidade.
“Este ano estou mais ligado e mais dentro da Pocariça. É bom porque, sendo o terceiro ano, as pessoas já nos conhecem e abrem a porta com mais facilidade”, explica.
No entanto, o grupo não se limita ao que já conhece: “Vamos agora para o Montinho, um sítio onde nunca fizemos porta a porta, para tentarmos chegar também a eles”.
A transição para o contacto direto trouxe a Salvador uma realidade mais crua e desafiante.
“Ontem fomos à casa de um senhor que não saía de casa há 15 dias. Insistimos para ele sair, mas ele não quis. Vamos lá voltar mais vezes esta semana a ver se conseguimos”, conta Salvador.
“Sinto mais aquilo que as pessoas dizem… é complicado, mas é muito bom. É um ótimo treino para quem quer ser advogado”, partilha.
Para Salvador, a marca que a Missão País deixa na Pocariça é a de ter “mexido com a terra”, pois nota que, desde a primeira edição, as pessoas vivem na expectativa do regresso dos jovens no ano seguinte.
Apesar de ser o último ano oficial do projeto nesta localidade, o balanço é de uma gratidão profunda.
“Acho que o que fica é a amizade. Vamos querer voltar aqui de certeza absoluta”, conclui.

Estudante finalista de Direito em Lisboa, João Perestrello vive o seu terceiro ano de missão na Pocariça como um fecho de etapa. Depois de passar pelo contacto direto com crianças e pelo “porta a porta”, abraça agora o palco, onde a generosidade e a cumplicidade se tornam a última oferta à comunidade.
A educação de João Perestrello esteve ligada aos Salesianos do Estoril onde teve o seu primeiro choque de realidade com uma missão ainda no 12.º ano. No entanto, confessa que a Pocariça, localidade que não sabia onde ficava até ao primeiro ano de faculdade, se tornou um lugar absolutamente especial.
No seu último ano de curso, João sentiu que “fazia todo o sentido voltar”. Recorda com emoção a receção e a despedida “apoteóticas” que teve nas edições anteriores e sublinha a tranquilidade de quem regressa a um lugar onde nunca se sente sozinho.
“Fomos sempre tão bem recebidos e protegidos por quem cá vive que tudo se torna mais fácil”, explica, referindo-se ao carinho da população.
Ao longo destes três anos, João percorreu valências distintas da Missão País. No primeiro ano esteve no Primeiro Ciclo, onde se surpreendeu com as perguntas “extraordinariamente inteligentes” de crianças para quem a missão era, muitas vezes, o primeiro contacto com a realidade cristã.
No segundo ano viveu a “adrenalina” do Porta a Porta e confessou que “gosto particularmente da incerteza relativamente ao abrir a porta e ao que daí vem”.
“As pessoas abrem-nos a porta por aquilo que representamos; compreendem que vem dali uma boa intenção”, explica.
Neste terceiro ano, João dedica-se ao teatro. Embora alguns missionários considerem esta valência mais isolada, por não permitir o contacto constante com a rua, João sente-se um privilegiado por já trazer consigo o “calor humano” dos anos anteriores.
Sobre o espetáculo deste ano, o jovem referiu algo diferente do habitual e que resultou de uma grande aposta da direção nacional.
“O teatro vive da generosidade e da cumplicidade entre os atores, que são também princípios da Missão País”, recorda.
Para João, o palco é o lugar onde “o ridículo não existe”, sendo apenas uma construção social que dá lugar à entrega total; uma encenação musical “como auge desta caminhada” e uma oferta em sinal de gratidão à comunidade da Pocariça, “que tão bem soube acolher”.

Leonor Lourenço, estudante do segundo ano de Direito em Lisboa, vive uma ligação especial com a Missão País. Nascida em Coimbra e com familiares na Pocariça, a jovem partilha como a experiência na creche e no lar de cuidados continuados moldou a sua fé e a sua visão sobre a fragilidade humana.
Para Leonor Lourenço, a Missão País na Pocariça é mais do que uma semana de voluntariado universitário; é um reencontro com as suas próprias raízes. Embora estude em Lisboa, Leonor nasceu em Coimbra e mantém laços familiares na freguesia, onde os primos dos seus avós ainda residem. No seu segundo ano de missão, e no último ciclo do projeto nesta localidade, a estudante de Direito confessa que a experiência tem sido marcada por uma hospitalidade sem paralelo.
Se no ano passado o desafio passou pelo Lar de Cantanhede, num ambiente de cuidados continuados que Leonor descreve como “intenso” e um “choque de fragilidade”, este ano a missão desenrola-se entre os sorrisos da creche.
“O lar foi mais desafiante. No início, não sabia bem como abordar as pessoas ou que temas evitar, mas houve uma evolução e conseguimos chegar a elas”, recorda.
Já com as crianças, o ambiente é de “inocência e diversão”. Leonor destaca a confiança imediata dos mais pequenos: “Entramos numa sala e eles vêm logo todos abraçar-nos. É muito giro ver esta confiança que têm em nós e a vontade de brincar”.
Com uma educação católica ligada aos Jesuítas, Leonor estava habituada à vivências de fé entre jovens, mas a convivência com a comunidade da Pocariça trouxe-lhe uma nova perspetiva, tem sido um motor de crescimento pessoal e espiritual.
“É uma fé mais tradicional, mas é muito bom ver a dedicação que estas pessoas têm à sua igreja e à sua comunidade. Tratam-nos com um carinho imenso e deixam-nos fazer parte disto”, explica.
A Missão País não termina quando os estudantes regressam a Lisboa. Leonor afirma que a missão lhe permitiu entrar na faculdade “com novos olhos”. Além das amizades profundas criadas durante a semana, a experiência teve um impacto “bastante positivo” na sua fé e na forma como se posiciona enquanto pessoa.
“Aprendemos sempre coisas novas com as pessoas da Pocariça”, conclui Leonor, sublinhando que, apesar de ser o último ano de missão nesta terra, as lições de hospitalidade e de carinho da comunidade ficarão gravadas na sua vida para sempre.

Manuel Paulo, estudante do 4.º ano de Direito em Lisboa, cumpre o seu quinto ano consecutivo de missão. No adeus da Faculdade de Direito à Pocariça, o jovem aponta a alegria cristã e o impacto de um projeto que, mais do que rostos individuais, leva a presença da Igreja a cada casa.
Para Manuel Paulo, a Missão País não é uma realidade estranha. Com irmãos mais velhos que já tinham participado, o estudante natural de Lisboa iniciou o seu percurso missionário ainda antes de entrar na faculdade. Hoje, no quarto ano do curso e no seu quinto ano de missão seguido, Manuel olha para a vila da Pocariça com um sentimento “agridoce”.
Com um percurso cristão marcado pela ligação a associações católicas de campos de férias, como “Carraças” e “Pegadas” (esta última dedicada a crianças de bairros sociais), e pela passagem pelas Equipas de Jovens de Nossa Senhora, Manuel vê na Missão País a oportunidade ideal para um jovem católico, o “projeto facilita a entrega da mensagem de Deus”, o principal objetivo..
“É uma oportunidade de servir e de fazer algo maior do que nós, muito concreto”, afirma.
Embora este seja o seu segundo ano na vila, Manuel destaca a forma excecional como foram recebidos desde o início.
“A Pocariça é uma terra especial pela maneira como nos recebeu. As pessoas abrem-nos as portas, e é engraçado ver que, quando perguntam se já cá estávamos no ano passado e dizemos que não, pouco lhes interessa; elas estão a abrir as portas à Missão País”, explica.
Para Manuel, este gesto tem um significado profundo: “As pessoas não me abrem a porta porque eu sou o Manuel e sou muito simpático, é porque estou com uma t-shirt que tem uma cruz. Abrem a porta à Igreja toda”.
Este ano, Manuel integra a equipa de Teatro, uma comunidade que descreve como sendo, por vezes, mais desafiante por não permitir um contacto tão direto e constante com as pessoas como outras atividades mas sublinha a importância desta vertente no encerramento da missão.
“Este último teatro vai ser no último dia em que vamos estar cá na Pocariça nestes três anos. Vai marcar o fecho do ciclo”, refere.
Quanto ao legado que os estudantes deixam, Manuel define que o objetivo é deixar uma alegria que não lhes pertence.
“A base da alegria é sempre a mesma: é a alegria de Cristo, da Igreja, que é completamente diferente de todas as outras”, aponta.
A terminar, o missionário garante que a Faculdade de Direito de Lisboa não esquecerá a hospitalidade da localidade.
“Tenho a certeza que a Faculdade não se vai esquecer da Pocariça e que a Pocariça se lembrará da Missão País durante algum tempo”, conclui.

