«Ser pai é aceitar ser um servo da família, bom e fiel”

Rui Bento é médico, diretor numa empresa europeia de Biotecnologia e pai de três filhos. Natural de Coimbra, mas criado no Alentejo, vive entre viagens e rotinas de crianças, entre a Ciência e os legos no chão da sala. Nesta conversa revela como a figura de São José é o seu “norte” e por que razão ter filhos, hoje, é um ato de gratidão e resistência.
O Rui tem uma vida profissional intensa, como diretor médico ao nível europeu. Como é que se conciliam as viagens constantes com a logística de uma família com três filhos pequenos?
Sou diretor médico ao nível europeu de uma empresa de biotecnologia que se dedica a doenças raras e faço mais viagens do que gostaria, mas é o meu ofício. Tenho o privilégio de ser casado com a Rita e temos o Francisco, de oito anos, o Pedro, de seis anos e a Maria do Carmo, uma bebé de seis meses. Gerir isto é ver o copo meio cheio ou meio vazio. No meio da azáfama, parece que os dias passam a correr, um “loop” constante. Falho muito no tempo de qualidade, mas a minha mulher é muito melhor do que eu nisso; equilibramo-nos.

Para o Rui e para a Rita, ter uma família numerosa foi uma decisão planeada?
Foi um critério não negociável para ambos. Queríamos ser férteis, generosos e abertos à vida, se a biologia corresse bem queríamos formar família… Três é a conta que Deus fez. A Rita é mais “santa” do que eu, confia mais na Providência e diz sempre que “isto há-de se arranjar”.
Como é que ficou quando soube que ia ser pai pela primeira vez? Ainda se recorda, foi há oito anos…
Foi muito bom, aquele momento em que subitamente já não éramos dois mas três, sem ser visível, ainda, mas o teste a dizer que sim, e nós acreditámos. A gratidão foi a palavra-chave, aliás é a palavra que define cada um dos nossos três filhos.
A gratidão foi a palavra-chave, aliás é a palavra que define cada um dos nossos três filhos.
Rui Bento
Os nomes dos vossos filhos têm algum significado especial?
São nomes todos “beatos”, assumo (risos). O Francisco é em honra de dois santos a que temos devoção, São Francisco Marto e do Padre Pio, em que o seu primeiro nome é Francesco. O Pedro em honra de São Pedro, o primeiro Papa. E a Maria do Carmo porque a mãe Rita nasceu a 16 de julho, dia de Nossa Senhora do Carmo, e dissemos sempre que se houvesse uma filha seria Maria do Carmo. É a nossa matriz cristã.
Numa sociedade tão secularizada e apressada como é ser pai nos dias de hoje?
Se olharmos o copo meio vazio, tudo parece estar virado do avesso, a sociedade que tem uma certa animosidade para quem assume a herança judaico-cristã. E que isso é a matriz da sociedade na qual nós somos criados, e acreditamos nessa matriz. Achamos que é o ponto de partida para uma coesão da nossa sociedade, e com isso está a ser ferozmente atacado de várias formas.
Mas também podemos ver o copo meio cheio, que é uma perspectiva da esperança. Se nós “mandarmos a toalha ao chão”, imagino que dizermos que não, eu tenho fé, eu sou cristão, mas depois isto está tudo muito mal, é uma crueldade por crianças neste mundo. Era dar-nos por vencidos.
Por exemplo, preferimos celebrar o Dia de Todos os Santos em vez do Halloween, escolhendo a beleza e a comunhão em vez do grotesco. Não queremos ser puritanos ou controlar os outros, mas queremos que os nossos filhos herdem os valores dos nossos pais e avós. É difícil, mas gratificante. Ter filhos hoje em dia é um desafio mas também há uma gratidão muito grande em criá-los, porque é ir contra a corrente.
Depois, temos S. José como o grande exemplo de pai, o modelo de paternidade.
Quando diz que é “ir contra a corrente”, certamente têm amigos que nunca foram pais, e que se calhar têm outro tipo de liberdade e que vão para outros sítios… É uma prisão, de alguma maneira, ter filhos?
Mentiria se dissesse que não. Às vezes vemos a selfie de um paraíso qualquer enquanto estamos em casa a lavar loiça, a cuidar da roupa ou com um bebé a chorar. Mas, no final do dia, há um sentido de missão cumprida. Estas três vidas dependem de nós e o exemplo que passamos é aqui e agora, não é para adiar para o futuro.
Não é quando elas crescerem e depois vamos lá passar os valores, não! É aqui e agora, desde pequenino.
E o exemplo que passamos, por amor de Deus, eu não estou a dizer que eu e a Rita somos um exemplo, mas somos exemplo para os nossos filhos. Nós erramos muito, no entanto, o que eles veem nos pais é realmente pais que não têm tempo para muito mais do que para a família, isto não é uma queixa, é um facto, e claro, temos de trabalhar…
No dia a dia, cultivam a fé em família com crianças tão pequenas, em que momentos conseguem estar juntos?
Temos pequenos rituais. Antes de dormir, mesmo que o dia tenha sido caótico, tiramos cinco minutos para agradecer. Rezamos o Pai Nosso, a Ave Maria e a oração de S. Miguel Arcanjo. É por repetição que se criam estes marcos na família. E, claro, aos fins de semana, tentamos sair um bocadinho de casa, ter momentos de qualidade. Agora com a bebé temos feito menos, porque há sempre alguma coisa para fazer….As nossas máquinas de lavar roupa não param todos os dias e a logística com Maria do Carmo é um bocadinho diferente. Portanto, temos tido menos programas em família, embora os façamos. Ainda recentemente estivemos em Lisboa, em visita a um familiar e fomos ao Museu da Ciência. Essas pequenas coisas que são especiais.
Aos fins de semana, tentamos sair um bocadinho de casa, ter momentos de qualidade.
Rui Bento


Momentos que se tornam especiais, é tempo com eles… Há alguma brincadeira favorita?
Sim, gostamos de fazer legos, com os rapazes, claro, que a bebé ainda é pequenina. É um momento em que estamos os três concentrados, fora dos ecrãs. Ali a minha paciência é testada, mas tenho aprendido a ter mais tolerância ao erro. É tempo de qualidade puro.
O Rui mencionou que São José é o seu grande modelo de paternidade. Porquê?
Eu pensei em três palavras: Servo, Bom e Fiel. Servo pelo compromisso total com a família; Bom no sentido de ser um “homem justo”, como S. José é retratado e Fiel à missão que aceitou. São requisitos simples, mas que me parecem dar sentido a tudo. É uma feliz coincidência estar ligado há tantos anos à comunidade de São José, e sim, olhar para São José como modelo.
É uma feliz coincidência estar ligado há tantos anos à comunidade de São José, e sim, olhar para São José como modelo.
Rui Bento
Eu acho que as duas coisas estão ligadas. Eu tive mais curiosidade em saber e estudar mais sobre a figura de São José, por estar ligado, desde que resido em Coimbra, à paróquia de São José.
Uma coisa está relacionada com a outra, porque se nós fazemos parte de uma paróquia que tem o nome do pai adotivo, suscitou-me a curiosidade e queria saber mais, S. José é uma inspiração.

Este dia 19 de março, o Dia do Pai, como é vivido na vossa casa?
Sou mais bem tratado por eles no dia 19, do que eu faço alguma coisa de especial…. Sou muito mimado! Eles trazem sempre aqueles trabalhos da escola e os desenhos que eu guardo, quase todos.
Depois as coisas banais que eles dizem são extraordinárias, que és o melhor pai do mundo. Sabe que Chesterton, o famoso escritor britânico convertido ao catolicismo, nessa altura da vida, dizia que “não há nada mais extraordinário do que um homem comum, uma mulher comum e filhos comuns”.
E ter estas coisas tão comuns, como dizer, “gosto muito de ti pai”, ou “o meu pai é o melhor do mundo” é a coisa mais extraordinária que pode existir.
Depois as coisas banais que eles dizem são extraordinárias, que és o melhor pai do mundo.
Rui Bento

