O diálogo ecuménico na zona centro da diocese de Coimbra

A preocupação com o diálogo ecuménico, na nossa diocese, remonta aos anos seguintes ao encerramento do Concílio Vaticano II. Recordo-me bem de, no início do anos 70, a cadeira de Teologia do Ecumenismo fazer parte do elenco das disciplinas lecionadas no Instituto Superior de Estudos Teológicos (ISET) e de ela ser ministrada, em chave ‘sinodalmente ecuménica’, por monsenhor Manuel Paulo, da parte da Igreja Católica; e pelos pastores Ireneu Cunha, da Igreja Metodista, e José Manuel Leite, da Igreja Presbiteriana.
Em 1970, por decisão do Sínodo da Igreja Presbiteriana de Portugal, foi fundado o Centro Ecuménico Reconciliação, em Buarcos, Figueira da Foz, infelizmente já desaparecido, mas que desenvolveu um grande trabalho em prol do ecumenismo, designadamente através do pastor José Manuel Leite, um apóstolo apaixonado do diálogo ecuménico, que chegou a fazer parte do Conselho Mundial das Igrejas e de outras instâncias internacionais.
Em 1971, a Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal, a Igreja Evangélica Metodista Portuguesa e a Igreja Lusitana – que já dialogavam entre si, desde os anos 40, para resolverem problemas comuns, como a formação dos seus ministros – fundam o Conselho Português de Igrejas Cristãs (COPIC), visando “trabalhar para uma maior manifestação da unidade da Igreja em Cristo” (Manuel Pedro Cardoso, in História do Protestantismo em Portugal).
Na diocese, ao longo dos anos 80 e 90, sucedem-se apontamentos dispersos de colaborações mútuas, como participação em reuniões de jovens, em celebrações eucarísticas ou conferências. A celebração anual da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos (SOUC) – que, no hemisfério norte, ocorre de 18 a 25 de janeiro – é aqui preparada desde 1996. E em 1998 é criada a Comissão Diocesana para o Ecumenismo, presidida pelo frei Eliseu Moroni, da comunidade franciscana dos Frades Menores Conventuais, da paróquia de Santo António dos Olivais, acompanhada com grande interesse e zelo pastoral pelo Sr. D. Albino Cleto, à data, Bispo-coadjutor.
Segue-se um empenhado período de ações de reconhecimento da realidade diocesana, procurando saber que igrejas protestantes existem no território, tentando envolver os vários arciprestes da diocese e desenvolvendo um contínuo diálogo com os históricos pastores da Igreja Presbiteriana do Centro, José Manuel Leite e Manuel Pedro Cardoso. Com a designação, entretanto ocorrida, do pastor Ireneu Cunha como bispo da Igreja Metodista, no Porto, esta Igreja deixa de ter representação na diocese.
O frei Eliseu afirmava que a nós, Comissão, não cabia a edificação de convergências e entendimentos, a nível teológico. Isso era matéria da competência das autoridades superiores das diversas Igrejas, teólogos e peritos. A nós era-nos pedida a construção de pontes, através do conhecimento mútuo e da realização, em clima de respeito e confiança, de iniciativas que criassem um ecumenismo de base, o chamado “ecumenismo da vida”.
E foi nessa direção que prosseguimos, aprofundando o conhecimento recíproco, participando na preparação e realização de iniciativas diversas, como palestras, momentos de oração, celebrações – das quais uma das mais representativas foi a do 50º aniversário do Conselho Mundial das Igrejas, em 19-09-1998, no Centro Ecuménico Reconciliação – e a preparação e celebração conjunta da SOUC ao longo dos anos, que se realizava tanto numa igreja católica, como numa igreja presbiteriana. Em cada ano é eleita uma causa ou instituição, a favor da qual revertem as ofertas recolhidas nas celebrações.

Da Comissão Diocesana fez parte o Luís Lima, um entusiasta da causa ecuménica, que, através dos seus contactos dialogantes com pessoas de outras confissões cristãs, trouxe para os nossos encontros pastores de outras Igrejas evangélicas.
Um dos campos favoráveis à colaboração ecuménica é o dos hospitais e de lá vieram pessoas como o padre José António, a irmã Inês, o padre Paulo Simões e o padre António Samelo, que passaram pelos nossos encontros, bem como o pastor João Pedro Robalo, da Igreja Ictus.
A partir de finais de 2005, fica à frente da Comissão Diocesana o frei Domingos, grande apaixonado pelo ‘ecumenismo da vida’. Com ele passamos a realizar, durante o ano, algumas vezes com periodicidade quase mensal, vários encontros com os nossos irmãos protestantes, a que, entretanto, se juntou o padre Ivan, da Igreja Ortodoxa. Normalmente iniciados com uma refeição comum, habitualmente em casa da pastora Eduarda, decorrem, com todo o à vontade e neles se partilham, além dos alimentos, orações, experiências, ideias, interpretações, projetos. Deles resultaram alguns retiros em comum, a participação em momentos celebrativos de uns e de outros, a preparação e o alargamento das celebrações da SOUC a, pelo menos, cinco dias.
Assim se começaram a percorrer igrejas da região centro, de uma e outra confissão, de Coimbra aos concelhos da Figueira da Foz, Montemor-o-Velho, Cantanhede e Mira, e, assim, se estabeleceu a prática que ficou cunhada como “caravana ecuménica” – inspirada pelo padre António Samelo – prática que ainda se mantém e que consiste em membros de cada uma das igrejas celebrantes acompanharem durante a semana as celebrações nas restantes igrejas.
E nem a pandemia cortou este diálogo. Com alguma criatividade, conseguimos realizar, com transmissão pelas redes sociais, uma belíssima e vastíssima celebração, de âmbito nacional, da SOUC 2021. E, visto que os vários confinamentos e restrições não permitiam os habituais “jantares cristãos”, realizámos virtualmente alguns durante este período.
Entretanto, após esse período conturbado da Covid, foram retomados os encontros presenciais de preparação e de realização alargada da SOUC.

pastora Sandra, Cristina Novo, fr. Fabrizio e p.e António, num dos “jantares cristãos”.
Feita esta resumida apresentação da atividade ecuménica na diocese, ficam algumas considerações e perguntas sobre o seu futuro.
Não há dúvida de que o Espírito providenciou a existência de pessoas profundamente dedicadas a esta causa. Algumas delas já nos deixaram, como o Luís Lima, o pastor Cardoso, o frei Domingos, o pastor Leite, o frei Eliseu e o padre Samelo, mas o seu exemplo e trabalho perduram, assim como continuamos a contar com a sua intercessão na comunhão dos santos.
Dúvidas não restam de que as pessoas, sobretudo os simples fiéis que todos os anos realizam a “caravana ecuménica”, se sentem motivadas a participar entusiasmadamente nas várias celebrações, sempre preparadas com todo o empenho.
Poderemos dizer que é suficiente? Não, certamente. Urge sensibilizar mais os pastores, sobretudo os padres diocesanos, para, assim, poderem também eles sensibilizar os seus paroquianos. Porque a verdade é que é muito edificante ver como as pessoas abrangidas pelas diversas celebrações ecuménicas mantêm um clima acolhedor e dialogante com as de igrejas diferentes da sua.
Por isso, termino perguntando: – Não seria útil, aproveitando o clima sinodal e o desígnio de aprofundamento da espiritualidade cristã do Plano Pastoral diocesano, que houvesse uma formação dedicada a aprofundar, com consequências práticas, esta dimensão ecuménica? E, atendendo à situação social trazida pela imigração, que esse olhar e ação se estendesse também ao diálogo inter-religioso?
Graça Ferrão
“Há um só Corpo e um só Espírito, assim como uma só Esperança a que fostes chamados” Efésios 4:4

Há uma semana por ano em que as igrejas cristãs em Portugal se juntam para celebrarem em conjunto: Chamamos-lhe Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, mas podia chamar-se simplesmente: a semana em que admitimos que, sozinhos, não somos Igreja de Cristo. Porque a verdade é esta: Jesus nunca pediu que concordássemos em tudo. Pediu que nos amássemos. E isso é infinitamente mais difícil porque a unidade cristã não nasce quando resolvemos todos os problemas teológicos. Nasce quando aceitamos que o outro não é um erro a corrigir, mas um dom a receber. Quando percebemos que o Evangelho não nos foi entregue para o guardarmos em cofres confessionais, mas para o vivermos juntos em comunhão.
Esta semana lembra-nos algo desconfortável: ninguém tem Jesus em exclusivo.
Nenhuma igreja o representa por inteiro. Todos vemos por partes, todos falhamos, todos precisamos uns dos outros para perceber melhor quem Ele é.


Orar pela unidade não é pedir que o outro mude para ficar mais parecido connosco. É pedir que Deus nos desarme. Que nos tire a arrogância disfarçada de fidelidade. Que nos liberte da tentação de confundir tradição com salvação. A unidade começa sempre assim: quando paramos de falar sobre os outros e começamos a caminhar com os outros.
Num mundo cansado de divisões, guerras culturais e identidades gritadas, a semana de Oração pela Unidade dos Cristãos é um sinal profético. E, no fim, a pergunta fica no ar — incómoda, mas necessária: se não conseguimos ser um entre nós, que Evangelho estamos afinal a anunciar?
Por isso na Região Centro a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos prolonga-se ao longo do ano. Criámos um grupo Ecuménico com padres, pastores e leigos que se encontram durante o ano para partilharem uma refeição, partilharem o que vai na alma, orarem e rirem. O riso faz aprte da nossa liturgia, como bálsamo que cura e constrói fraternidade. Somos companheiros de missão, irmãos com dores de crescimento e vocação. Quando celebramos não é o padre da igreja católica e o pastor da igreja reformada, somos irmãos que partiram o pão e celebraram este caminho de serviço e entrega.

Ao longo dos anos, percebemos que o ecumenismo também se faz no luto. Padres, pastores e leigos que começaram como parceiros institucionais tornaram-se irmãos próximos. Chorámos juntos e hoje recordamo-los com um sorriso de lágrimas. Percebemos que o ecumenismo se torne mais verdadeiro: quando deixa de ser um projeto e passa a ser uma história partilhada, atravessada pela perda, mas sustentada pela esperança de que caminhar juntos continua a fazer sentido. Mesmo — ou sobretudo — depois da despedida.
Na zona Centro, para além dos jantares, encontros ao longo do ano e a proximidade que se criou entre as equipas de trabalho, a própria semana é diferente do resto das zonas do país: Há cerca de quinze anos nasceu a Caravana Ecuménica: Ao longo da semana realizam-se, habitualmente, cinco ou seis celebrações. Nelas participa um grupo fiel de leigos, padres e pastores que escolhe não apenas estar presente na celebração que acontece na sua paróquia local, mas que se deslocam a outros localidades, muitos fazem questão de não falhar nenhuma celebração. Assim não há uma celebração inscrita no calendário, mas uma caminhada partilhada, pela repetição do encontro, pelo reconhecimento mútuo, pela alegria e celebrar juntos.
Há bastantes anos que a Semana de Oração Pela Unidade dos Cristãos também deixou de ficar apenas no discurso e passou a ganhar forma em gestos concretos. Todos os anos escolhe-se uma organização ou projecto e a solidariedade torna-se prática: recolhem-se fundos, criam-se pontes, responde-se a necessidades reais. Ao longo do tempo, já são dezenas as entidades apoiadas — sinais consistentes de que caminhar juntos é também assumir responsabilidades comuns.

A Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos não é um evento reservado a especialistas ou líderes religiosos; é um convite aberto a todos os que acreditam que a fé cresce quando é partilhada. Participar nas celebrações é dar um passo significativo, neste caminho comum.
A Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos começou no dia 19, seja bem-vindo, faça parte da Caravana Ecuménica.
Maria Eduarda Titosse e Sandra Reis
Pastoras da Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal
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