A maior parte dos caminhos não começam do zero. Já existem. Não é necessário desbrava-los, abri-los. Continuam-se. O Caminho de Emaús, a estrada dos onze quilómetros que separavam Jerusalém da aldeia, já existia antes dos desanimados discípulos se porem a andar, na manhã do Domingo da Ressurreição. Não temos que andar sempre a abrir novos caminhos. Há caminhos que já existindo podem ainda ser capazes de trazer inovação na ancestralidade, de trazer segurança na aventura, de trazer transformação na experiência dos outros.
O Escutismo é um destes Caminhos. Não é novo, tem mais de cem anos testados ao máximo em todos os ambientes possíveis, escrutinados ao limite por todas as espécies de censores e inquisidores, experimentado por milhares de jovens de todos os países, credos, etnias e estratos sociais. É já um velho caminho, poderá dizer-se. Mas continua novo, continua fresco, continua capaz de ser transformador e multiplicador de transformação.
Durante os últimos três anos, aqui na Diocese de Coimbra – que é a Região de Coimbra do Corpo Nacional de Escutas – Escutismo Católico Português – procurámos dar o nosso contributo para que o Escutismo fosse Ponte.
Construímos, passo a passo, com mãos dadas, com erros e aprendizagens, com a coragem de quem acredita que vale a pena seguir.
Terminado o triénio, avaliámos e concluímos: Fomos Ponte. Ligámos pessoas, ideias, vontades. Criámos encontros onde antes havia distância. Abrimos caminhos onde antes havia dúvida.
Mas a Ponte não é o fim. É uma passagem. A Ponte é uma estrutura que adicionamos ao Caminho, para o melhorar, para lhe dar eficácia e eficiência. A Ponte é feita para ser transposta! E foi atravessada.
Depois de um transpor coletivo, com já mais próximo o que era afastado, entendemos que nasce um novo tempo: O de continuar o Caminho, juntos! Qualquer caminho? Não! Há que ser mais exigente, há que ambicionar superação. Há que lutar por sentir o ‘ânimo’ de Jesus fez sentir aos discípulos de Emaús. Há que ambicionar pelo ‘alento’ que o Espirito Santo inundou a sala na manhã de Pentecostes.
Acreditamos que o Escutismo é, efetivamente, um Caminho que Transforma crianças e jovens em Homens e Mulheres capazes. Transforma quem lidera, porque aprende a servir. Transforma quem participa, porque descobre o seu lugar. Transforma quem ama a Vida, porque lhe dá sentido, esperança e propósito. Transforma quem é resiliente, porque lhe dá ferramentas e competências para a Vida.
Mas o Escuteiro também é, ele próprio, um Caminho transformador e de transformação. Porque aprendeu a dizer ‘Sim’ quando é chamado. Não como espectador, mas como parte. Não como número, mas como história. Não como obrigação, mas como escolha. Não apenas como exemplo, mas como testemunho. Capaz de transformar a sua própria vida, a dos seus próximos, a da sua comunidade, da sua região… porque as torna mais vivas, mais conscientes, mais próximas. Gritando ‘Sim’, quando chamado a construir. Estando presente, quando chamado a cuidar. Ambicionando deixar marca — não pela força, mas pelo sentido.
Em 2026, no ano em que o Escutismo em Coimbra faz 100 anos, é preciso trilhar o ‘Caminho que Transforma’, aceitando ser, também, Caminho que Transforma e ajudando cada escuteiro a ser objeto e agente de transformação.
Aos 100 anos, Coimbra precisa de ser uma Região excêntrica! Que coloca o Centro no Outro, que se faz de dentro para fora, que se foca para Servir onde é preciso.
Onde o escutismo continua a ser escola de vida, espaço de encontro e caminho de futuro. Mas é também oportunidade de Serviço às Comunidades, espaço de desafio e caminho de transformação. Onde cada dirigente, cada jovem, cada comunidade encontra propósito no que faz. Onde todos possamos ser ‘Discípulos Missionários’, firmes, fiéis e disponíveis, com ‘Fé incarnada’ para a ação e para o Serviço onde o Amor de Deus é vivido e necessário.
Porque os Caminhos não se impõem. Vivem-se. Transformam. E transformam-nos.

