Do tempo feliz que Américo Monteiro de Aguiar viveu no Seminário Episcopal de Coimbra, como seminarista até ser ordenado de Presbítero [1925-1929], foram deixados vários testemunhos com muito interesse para a sua biografia, como o do Padre Luciano de Carvalho [1909 † 2001], do qual já recolhemos uma parte e que importa transcrever na íntegra. Como testemunha próxima de alguns momentos curiosos, tendo boa memória e jeito para dar notícias históricas, traçou um esboço de perfil com diversas facetas que vale bem a pena deixar no jornal diocesano Correio de Coimbra. Assim, continuou a recordar:
«[…] 4.º – VIDA INTERIOR
O Américo era homem que meditava. Teve sempre aquele jeito mesmo antes de abandonar o mundo. Estão-me a lembrar cabazes de violetas que ofereceu às freiras, à passagem pela Madeira. Fazia-lhe ´espécie´ aquela alegria das raparigas que viviam tão afastadas dos divertimentos ruidosos da nave e riam como crianças.

Gostava também de contar, porque muito o impressionara, o encontro com um sacerdote a quem se dirigiu e por acaso se espraiou em comentários às comodidades e belezas materiais de certa estância de águas… E perguntava a si mesmo: ‘porque é que, sendo ele padre, não fala só de Deus, das almas?… Leu?’. E ficava triste pois se convencia de que o homem não vivia o seu Sacerdócio.
Vi-o em 1928, após a Conferência do Padre Matéo sobre o Inferno, no Salão de S. Tomás, ajoelhado diante do Santíssimo, com as mãos a cobrir a cara e a chorar convulsivamente. Acompanhei-o imensas vezes na Via Sacra. Observei-o a meditar com certo padre, já velhinho, que estava em concerto… Não se pense que só sabia as obras de Misericórdia Corporais ou que a sua Caridade acabava no pobre; não. Subia mais alto… Àquele que disse: ‘A Mim o fizestes’!
Parece que ainda ninguém se referiu à bofetada que lhe deu certa mulher numa vila (Soure), aonde fora pregar no dia do Corpo de Deus. À tarde, dizia-me: ‘Ó Luciano, custa tanto ser de Cristo’!
5.º – O MESTRE
Os discursos do Américo nunca os achávamos longos. Havia tal silêncio, embevecido, quando ele falava ou escrevia, que não se podia fazer festa em que o Américo não botasse fala.
Não me esquece o Carnaval em que fiquei com outro condiscípulo guardando o malogrado P. Costa Borges. O que me custou mais, foi privar-me de ouvir o discurso do Américo.
Ficaram-me gravadas algumas frases dele, como: ‘O galopar tempestuoso das enormes locomotivas ao chegar ao Cabo, glorious morning’ (gloriosa, esplêndida manhã)…, ‘momentos de eternidade’.

Lembra-me também com frequência a descrição que nos fazia do trágico afundamento do Titanic e, principalmente, das circunstâncias em que teve conhecimento dessa tragédia. Viajava de barco no Mediterrâneo, quando receberam o S.O.S. do Titanic. Após a perda do transatlântico, a orquestra do bordo tocou o ‘Mais perto de vós, meu Deus, mais perto de vós!’ que todos ouviram de joelhos e olhos cheios de lágrimas. Só ele o sabia contar de modo a fazer-nos chorar.» [vd. O Gaiato, N.º 400, 11 Julho 1959, p. 2].
«6.º – O ANIMADOR
Estávamos em Buarcos quando, em 1928, faltavam justamente trinta anos para a celebração do centenário da fundação do Seminário de Coimbra. Falei nisso ao Américo que imediatamente me obrigou a preparar um brinde (com um tal ‘ad omnia’) para comemorar o facto… Ele é que me deu a primeira frase – ‘os mortos mandam’– do tribuno espanhol. É claro que se tinha de falar no Santo D. Miguel da Anunciação… O nosso humilde contributo.
Quando recebi o Subdiaconado, ofereceu-me os dois volumes do ‘Berthier’ com a dedicatória. ‘… Como sinal de reconhecimento pela lembrança que me não deu, etc.’. E no fim a célebre assinatura: P.e Américo!
De uma vez preparou-se uma academia e ainda guardo o discurso que me obrigou a fazer sobre a ´alegria´ e a lembrança dos elogios que me dirigiu.
Depois dos sermões que me marcou em São Pedro de Alva e em Enxofães – há quantos anos! – sai-se-me com um elogio no estilo da oração que fez diante do sacrário de Paço de Sousa por ocasião de uma estadia lá do P.e Chico Antunes: ‘Ó Jesus, eu não sou mais que um m…’.
7.º – A HUMILDADE
Quando se comemoraram as ‘bodas de prata’ de D. António Antunes, já não nos víamos há anos. Como ele reviveu, da Baixa ao Liceu D. João III, a nossa camaradagem antiga!

Eu tinha-me picado muito nos espinhos da vida e ele, de longe, assistia… Ao encontrar-se comigo na sacristia da igreja de São Bartolomeu, desata a beijar-me ruidosamente e quase a gritar: ‘Este… etc. …’ e catou um hino de louvor à humildade.
Se não se esperassem recompensas mais altas, valia a pena ter sido rebaixado para receber tal exaltação.
*
Foi na missa nova do P.e António Baptista em Lisboa que nos encontrámos pela última vez. Ao ver-me aparecer ao longe, na companhia do H. Ruas, cumprimenta: ‘olhem o laparoto do L…’. Mas era por bem.
À missa e ao jantar quis ficar pertinho de mim. Eu gostei de o não ter perdido. Padre Luciano» [vd. O Gaiato, N.º 401, 25 Julho 1959, p. 2].
***
Sobre algumas figuras e momentos citados, seguem-se breves notas. Assim, referiu a passagem de Américo Monteiro de Aguiar pela Madeira, que aconteceu depois de ter deixado Moçambique, em Janeiro de 1923, onde trabalhou 16 anos. De facto, passou pelo Funchal, trabalhando na firma Blandy Brothers, do seu amigo Simão Correia Neves [1888 † 1965]. Porém, em Março de 1923, já se encontrava em Paço de Sousa, com projectos comerciais.
O Padre Matéo Grawlei Boevey nasceu em 18 de Novembro de 1875, em Arequipa – Peru e faleceu a 4 de Maio de 1960, em Valparaíso – Chile. Foi um grande apóstolo do Sagrado Coração de Jesus e veio a Portugal no final de 1927, tendo passado por Coimbra em Janeiro de 1928. Foi vivamente escutado e deixou também em Américo de Aguiar uma profunda impressão espiritual.
A situação desagradável referida aconteceu em 1934, por ocasião da Festa do Corpo de Deus, em Soure, onde Padre Américo foi pregar. Tendo-se aproximado de uma criança, acabou por ser esbofeteado e apupado… [vd. O Gaiato, N.º398, 13 Junho 1959, p. 1].
O Padre António da Costa Borges nasceu em Ervedal da Beira, foi Professor do Seminário de Coimbra desde 1928-1929 de faleceu em 30 de Outubro de 1934 [vd. Os Seminários da Diocese de Coimbra, Coimbra, 1959, p. 59].
Sobre o dito célebre naufrágio, depois de Américo de Aguiar ter embarcado na Beira, em Moçambique, para Portugal, em gozo de férias, via Canal de Suez, o vapor onde viajava apanhou um S.O.S. do paquete de luxo Titanic, que veio a afundar-se no Atlântico Norte, em 15 de Abril de 1912.
O título Os mortos mandam [1909] é um romance do espanhol Vicente Blasco Ibáñez.
O Padre Francisco da Fonseca Antunes nasceu em 29 de Setembro de 1918, na freguesia de Pousos, diocese de Leiria, filho de Manuel Antunes e Maria de Jesus Fonseca. Faleceu em 11 de Maio de 2009, em Coimbra.
O Padre António Baptista dos Santos nasceu em 19 de Novembro de 1930, na freguesia do Cabril – Pampilhosa da Serra, e foi ordenado Presbítero em 29 de Junho de 1954, por D. Manuel Gonçalves Cerejeira, Cardeal Patriarca de Lisboa. Desde 1958, serviu os doentes do Calvário e os rapazes da Casa do Gaiato de Beire, em Paredes, da Obra da Rua.

