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- Para nos pensarmos

Obrigado, Padre Idalino Simões!

José Vieira Lourenço

O Padre Idalino Simões nasceu a 13 de Março. Para comemorar os seus 87 anos, um grupo de amigos reuniu-se à sua volta num almoço de homenagem no Seminário Maior de Coimbra, no passado dia 13 de Março de 2026. No final do almoço usaram da palavra a promotora deste almoço, Deolinda Paiva, José Vieira Lourenço, Jorge Oliveira e Américo Santos. Falou também, o homenageado, que agradeceu o encontro e deixou a todos uma certeza: a promessa de que a sua luta pela construção do Reino de Deus na Terra vai continuar a ser um horizonte e um desafio na sua e nas nossas vidas, que tanto lhe devem. Deixo aqui o resumo intervenção feita no final desse almoço.

1. Idalino Simões nasceu em Tapeus, concelho de Soure, a 13 de Março de 1939. Foi ordenado sacerdote em 1963. A sua atividade pastoral, foi profícua, intensa e diversificada. Teve até hoje uma vida cheia. Fez parte da equipa formadora do Colégio de São Teotónio; integrou a equipa formadora do Seminário Maior de Coimbra (onde tive o privilégio de ter sido seu aluno, em 1968, na cadeira de Literatura Portuguesa no antigo 6º ano); foi professor de Religião e Moral nas Escolas Eugénio de Castro e na Secundária José Falcão; participou na Fundação do Instituto Universitário Justiça e Paz (IUJP) em 1971, tendo integrado a sua direção até 1986; foi Assistente Nacional da JUC de 1978 a 1980 e Assistente Nacional do MCE de 1980 a 1982. Foi de Pároco de São Martinho do Bispo de Outubro de 1986 a Novembro de 2005. Desempenhou ainda funções em Ribeira de Frades, Pereira do Campo, Arzila e Santo Varão de 2001 a 2005. Foi capelão da Comunidade das Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora das Vitórias, Cruz de Morouços. Foi pároco de Condeixa-a-Nova, durante os últimos anos em que exerceu funções paroquiais. Posso ainda destacar, que este padre, de mente aberta, participou, no ano académico 1991–1992 no Curso de Formação Permanente na Pontifícia Universidade de Salamanca, no âmbito da sua formação contínua de sacerdócio e ministério pastoral. Sabemos hoje – e isso foi confirmado por Américo Santos na sua intervenção – que durante o período do Estado Novo, as suas atividades mereceram as desconfianças da PIDE. Segundo informação que recolhi Idalino Simões foi seguido de perto pela polícia política, como o comprovam diversos relatórios dum informador chamado Inácio. Aí é classificado como “anti-salazarista”, “padre progressista” e como denotando “ódio profundo ao Estado Novo.” E ainda de acordo com Américo Santos “fazia parte do grupo dos padres Vermelhos” ligados ao IUJP. Desse grupo faziam parte igualmente os Padres José Oliveira Branco, José Antunes, e João Trindade.

Ao longo do seu percurso, Idalino Simões dedicou-se ainda à tradução de diversas obras. Citaremos apenas as mais relevantes: Para Compreender a Paróquia, de Casiano Floristán; Lucas, evangelista da ternura de Deus, de Francesc Ramis Darder; Mateus, de José António Pagola; Metamorfose do sagrado e futuro cristianismo, de Juan Martín Velasco; Para descobrir o caminho do pai, de Xabier Pikaza; Para que serve a fé, de Santiago Martín; Curso de Iniciação à Leitura da Bíblia, de La Casa de la Bíblia; A Bíblia em grupo. 12 Itinerários para una leitura crente, de La Casa de la Bíblia; Buscadores de Deus (três volumes) e Joana Jugan, ambos de José Román Flecha

Não podemos pois estranhar, que uma vida tão rica, tão intensa, tivesse merecido a justa atribuição da Medalha de Mérito Municipal Grau Ouro da Câmara Municipal de Condeixa-a-Nova, no âmbito das condecorações do Dia do Município a 24 de Julho de 2019.

2. Cremos que é justo, que nesta pequena homenagem ao amigo Padre Idalino que aqui evoquemos o seu amigo, o padre Doutor José d’Oliveira Branco que faleceu aos 92 anos de idade e 69 de ordenação sacerdotal, em 22 de Dezembro, 2025 “no seu quarto” no Seminário Maior de Coimbra, onde residia. Tive também o raro privilégio de ter sido aluno, nas cadeiras de Filosofia, do Doutor Oliveira Branco no Seminário Maior de Coimbra e no Instituto Superior de Estudos Teológicos. E é com algum orgulho que posso dizer que se sou Licenciado e Mestre em Filosofia Contemporânea, pela Faculdade de Letras de Coimbra, a ele devo isso, pois foi ele quem me fez descobrir e ganhar gosto por esta apaixonante disciplina.

O Curriculum Vitae do Padre Oliveira Branco é conhecido mas merece aqui ser recordado: em 1955 é nomeado prefeito e professor do Seminário Menor da Figueira da Foz; em 1957 é nomeado redator da Rádio Renascença a pedido de Monsenhor Lopes da Cruz; em 1963 é enviado para Roma onde estudou Filosofia na Pontifícia Universidade Gregoriana; em 1985 aí realiza o seu doutoramento; em 1965 é nomeado prefeito e professor do Seminário Maior de Coimbra; em 1966 é nomeado assistente do CADC (Centro Académico Democracia Cristã), e em 1972, nesta qualidade, participa na fundação do IUJP; em 1972 é nomeado professor do Instituto Superior de Estudos Teológicos de Coimbra – ISET (até 2012); em 1977 é nomeado capelão do Estabelecimento Prisional de Coimbra (até 2003); em 1987 é nomeado capelão das Irmãs Dominicanas, Colégio de São José (até 2012); em 1990 é nomeado, por um triénio, membro do Conselho Presbiteral.

Relativamente à basta obra do Doutor Branco queremos destacar as duas obras principais – A tese de doutoramento em Filosofia feita na Universidade Gregoriana de Roma «O Humanismo Crítico de António Sérgio», uma bela homenagem a esta personalidade tão rica da cultura portuguesa, cuja edição impressa se encontra esgotada há anos e O Brotar da Criação, Um olhar dinâmico pela Ciência, a Filosofia e a Teologia um livro em coautoria com o Professor Sebastião J. Formosinho, que trata, de forma ampliada e interdisciplinar, temas como a origem do universo, a interpretação científica e filosófica do «big bang», e a relação entre ciência, filosofia e fé.

3. Mas voltemos ao Padre Idalino Simões, o homenageado do dia. Os testemunhos que vamos agora partilhar, respondendo ao desafio da Deolinda Paiva, têm por base o Livro comemorativo dos 50 anos do Instituto Universitário Justiça e Paz. 50 anos, 50 Histórias. E vamos seguir a sequência dos testemunhos apresentados. O primeiro é do Doutor José Antunes, hoje aqui presente, outro querido amigo que tanto marcou a minha vida e de quem também tive o privilégio de ser aluno nesta casa durante o Curso de Teologia. Ele declara que acompanhou o IUJP desde a sua génese até 1975, em colaboração com os amigos de sempre Padre José Oliveira Branco e Padre Idalino Simões, que considera os dois pilares fundamentais a quem o Instituto tudo deve em continuidade, acção e vida. Para João Gouveia Monteiro, ex-aluno de Idalino Simões, este é referenciado como um querido e velho amigo, com quem descobriu o caminho que conduz ao IUJP e relembra o tempo em que o Idalino retirava os alunos do José Falcão, onde era professor de Religião e Moral, para os trazer para a maravilhosa varanda do Instituto, diante daquele jardim maravilhoso, em que até podíamos contar os tons de verde diferentes. Para Raimundo Mendes Silva, Idalino Simões é um nome incontornável na história do IUJP tais foram as marcas que deixou. E Raimundo escreve uma frase lapidar: Sempre dissemos que quando temos uma ideia inovadora, disruptiva e que julgamos ir revolucionar o mundo, o Idalino já tinha pensado nela e aguardava serenamente que a descobríssemos. Obrigado Idalino. E no remate do seu testemunho conclui:Agradeço à Igreja-mãe, ao Instituto que é muitas das suas faces, a todos aqueles com quem me cruzei, de forma muito especial ao Idalino Simões que continua sempre mais jovem do que todos nós. Adriana Teixeira, evoca com saudade a sua visita á comunidade de Taizé, onde esteve com o Padre Idalino. Que experiência! Aquelas montanhas verdes, o silêncio a emanar muita paz, as palavras de frei Roger, o trabalho manual de cada frade, a simplicidade de vida, a felicidade do simples. Para Deolinda Paiva Idalino Simões deve ser incluído no grupo dos mestres e amigos ao lado de José Antunes e José Oliveira Branco, cujos carismas, tão distintos, sempre resultaram num trabalho em equipa verdadeiramente fora do comum e eficaz. Deolinda recorda ainda a desconfiança da Juventude Universitária Feminina, perante a nomeação de Idalino Simões para o cargo de novo assistente da JUCF! Como é que alguém tão novo, logo inexperiente, poderia ser a pessoa indicada para tal cargo? Mas rapidamente foi obrigada a concluir que o Idalino Simões foi o maior dom que Deus poderia pôr no seu caminho e no caminho das gerações que se seguiram e concluiu que o doutor José Antunes e o Espirito Santo acertaram no sopro!(E Já agora convém aqui recordar que foi o Idalino que apresentou o Carlos Paiva à Deolinda e foi este quem deu a bênção ao namoro e ao casamento). Augusta Mateus Patrício, Fátima Marques e Rui Marques, que foram membros da JUC nos anos 70, consideram que a convivência com Idalino Simões permitiu-lhes ler de forma abrangente a crise estudantil do final da década de 60, muito para além do que cada um viveu. Rui Madeira, autor de um dois maiores testemunhos na obra que estamos a seguir, faz uma curiosa referência ao papel de Idalino Simões enquanto estratega de distribuição da Revista Estudos e sobretudo um número dessa Revista que esteve clandestinamente escondida debaixo duma escada do Seminário! Clara Moura e José Vieira recordam no seu testemunho o IUJP como casa onde viveram, que os acolheu, como um ponto de encontro de amigas e amigos em rede alargada e recordam as tertúlias, as conferências temáticas, o seu casamento na Capela do IUJP, o nascimento e o batizado da sua primeira filha mas sobretudo as celebrações eucarísticas que juntavam diferentes gerações, agregadas pela sábia e orientação do Padre Idalino Simões, posteriormente coadjuvado pelos padres jesuítas residentes na Couraça de Lisboa, vizinhos do IUJP. Euclides Dâmaso, que foi residente no IUPJ, recorda que no dia da chegada foi praxado com elegância por comensais mais velhos, que confundiu com estudantes veteranos! Só depois veio a saber que os ilustres praxadores, foram os Padres Idalino Simões e João Trindade que ao tempo residiam na casa. E declara: no número 30 da Couraça de Lisboa reinava um espírito de fraternidade e concórdia arquitectado por Idalino Simões e João Trindade, que eram um bálsamo para a crueldade dos dias (…) o quarto do Padre Idalino estava sempre aberto e muitas foram as tarde que passámos a gastar a agulha do seu gira-discos, a volta de Patxi Andion, de Jesus Cristo Super Star, das cantigas de Maio ou da Queixa das almas jovens quando censuradas. Sempre sem queixa ou recriminação do bom proprietário a quem, além disso gastávamos algum vasilhame, sem garantia pontual de reposição. Recorda ainda que foi nesse quarto, que numa bela manhã de Abril de 74, sintonizaramtodas as emissoras disponíveis para saber para que lado caiam as coisas. Mas acrescenta: fomos almoçar com a certeza de que a liberdade estava a passar por aqui. Confessa ainda que guarda boas memórias das reflexões conduzidas por Idalino Simões, da sua sensibilidade e do espírito maiêutico insuperáveis, das celebrações onde se partia e o pão e o vinho mas sobretudo da espiritualidade revelado pelo Padre Idalino, que era diferente, arejada, libertadora, humana e solidária. E por isso mesmo, embora declare que continua intocado pelo dom da fé, não deixou de assimilar os valores essenciais da humanidade: abertura e serviço aos outros, tolerância, compaixão e solidariedade, valores que são afinal o Sal da terra e que a lhes foram incutidos pelo Idalino e pelo ambiente vivido no IUJP. João Maria André refere no seu testemunho que foi graças ao Idalino Simões que foi criado no IUJP um laboratório de fotografia, onde muitos aprenderam a revelar fotografia, e mais do que isso, a olhar o mundo com a sensibilidade que o Idalino ia despertando e desenvolvendo entre nós. (Abro um parêntesis para recordar que todos nós conhecemos a paixão do Idalino pela fotografia. E até posso dizer que foi o Idalino o autor das primeiras fotos da minha filha mais velha na maternidade.) Gil Figueiredo, membro do Coro D. Pedro de Cristo, recorda com emoção os seus primeiros contactos com o IUJP e referindo-se a Idalino Simões, pergunta: Que dizer do Director? Parei de escrever momentaneamente pois (…) é tão somente um homem de pensamento esclarecido, sempre pronto a ouvir e a ter uma boa conversa. Com ele o IUJP tornou-se uma casa de fé e uma casa plural. As suas palestras ou homílias são preciosidades que guardamos religiosamente mas sempre disponíveis e prontas a ter efeitos. Lembro-me de mis tarde, quando deixou a direcção do Instituto e o mobilizaram para a paróquia de S. Martinho do Bispo, eu me deslocar todos os domingos aquela paróquia, vindo de Condeixa-a-Nova, para assistir às suas homilias, regressando a casa sempre motivado. Bem-haja Padre Idalino Simões. Para a Maria do Carmo e para o José Manuel Pureza, O IUJP foi também um dos pilares das suas vidas. Nos anos 70 confessam que mergulharam nessa casa, e que o Instituo não era um lugar, uma casa, eram pessoas com as suas reflexões desafiantes, eram discussões sobre a vida a mudar, eram expressões eclesiais em ensaio. E em tudo isso o Idalino era uma referência forte. No bar, na varanda, no gabinete do Idalino, na Biblioteca, na sede da JUC ou na capela, respirámos as alegrias e as tristezas e as angústias dos homens e das mulheres nossos/as contemporâneos/as. E vivemos uma Igreja comprometida com todos/as eles/as, sobretudo com os pobres e todos aqueles que sofrem. Para Maria Adelina Almeida o Padre Idalino foi uma figura incontornável, não intrusivo, mas agregador. Recorda o grupo de Medicina do MCE, iniciado graças ao espírito do Padre Idalino que com a sua abordagem tímida e a sua gargalhada franca conseguiu agregá-los e levá-los semanalmente a reunir e a reflectir sobre temas de importância no dia a dia dos estudantes de medicina. Ana Margarida Ferreira descobriu nos anos 80 o MCE e o seu assistente Idalino Simões. Recorda com saudade as celebrações onde Idalino Simões e Neto Samelo lhe ensinaram que a História nunca pode ser travada! Helena Vieira Alberto descobriu igualmente nos anos 80 o IUJP quando foi convidada para participar num campo de férias do MCE. Avisou que não era católica, mas depressa descobriu essa referência chamada Idalino Simões. Por isso evoca as respostas dele às suas interrogações e angústias: Há demasiados exemplos na Igreja de quem age de forma oposta ao que proclama, dizia ela. Mas o Idalino retorquia: O Mondeguinho é uma nascente de água límpida, sem mácula, mas não é mais do que um fio de água. O Mondego é turvo quando chega a Coimbra, mas dá de beber a muita gente. Não é possível ter o Mondego com a pureza do Mondeginho! E perante a pergunta da Helena: O que é isso de pecar? O Idalino respondia: É não ser solidário com o próximo! Por isso ela conclui: Não há questão metafísica que perturbe o legado do Padre Idalino e do Justiça e Paz: o de transformar o sentido do outro, presente no Evangelho, no próprio sentido da vida. Não resta alternativa, há que abraçar o espaço do desconforto. Arsénio Santos considera o Idalino um verdadeiro pastor, talhado para compreender os mais jovens, para ouvir as suas angústias, para os apoiar e orientar nos seus projectos e para os ajudar a rasgar horizontes. Rui Paulo Assis testemunha que o Idalino Simões foi referência suporte, construtor e semeador, de generosidade sem fim (até no inesquecível Datson 120 y que arriscava pôr nas mãos de tantos condutores inexperientes). Rute Soares cedo descobriu que o Idalino, referência para todos nós, estava sempre pronto para receber toda a gente no seu gabinete, onde se podiam discutir assuntos de toda a espécie: daquele gabinete saíamos sempre enriquecidos com mais uma referência musical ou filosófica ou teológica e (não raras vezes emprestava ou oferecia os seus livros e discos) e ali éramos interpelados a fazer mais e melhor por nós, pelos outros e pela Igreja, mas nada nos era imposto ou exigido. Ana Paula Medeiros recorda o Padre Idalino como um senhor que cruza os espaços dos afectos, da proximidade, da abertura a todos e a tudo com possibilidade de diálogo. Recorda-o como alguém de olhos brilhantes, coração arguto e um sorriso desarmante, que viaja facilmente em diferentes territórios, da religião e da Igreja, do cinema e da literatura, das artes, da espiritualidade à Teologia, da Política à História… Como alguém que transporta memórias, que contagia de energia e entusiasmo… mas sobretudo que está, que se senta e escuta, que sorri, comenta, discorre….E que da nossa pequenez faz-nos grandes, verdadeiros interlocutores e sujeitos activos, participantes desse murmúrio que reverbera uma vida interior densa e actuante.

Muitos outros testemunhos poderíamos ter relativamente a este homem notável e marcante na vida de tanta gente, a quem hoje cantamos os parabéns! Mas limitámo-nos a citar os da publicação referida, que são bem significativos por sinal.

Idalino Simões, obrigado por seres quem és e por teres contribuído para sermos quem somos!

José Vieira Lourenço

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