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Cuidar da democracia começa no cuidado com os mais frágeis

Paulo Barradas Rebelo – CDJP

Paulo Barradas Rebelo - CDJP

Vivemos um tempo paradoxal. Nunca tivemos tantos instrumentos democráticos, tanta informação disponível, tanta possibilidade de participação. E, no entanto, cresce a sensação de afastamento, de desconfiança, de cansaço em relação à vida pública. A democracia parece existir, mas nem sempre se sente viva.

Como empresário e como cidadão, preocupa-me sobretudo uma realidade silenciosa: quando uma parte significativa da sociedade se sente esquecida, a democracia começa a perder raízes. Não por falta de eleições, mas por falta de justiça concreta no dia a dia.

A fragilidade social — seja no trabalho precário, na dificuldade de acesso à habitação, na solidão dos idosos ou na incerteza dos jovens — tem consequências políticas profundas. Pessoas que vivem permanentemente na margem tendem a desligar-se. E quando muitos se desligam, a democracia enfraquece.

É um erro pensar que a defesa da democracia se faz apenas nos discursos institucionais ou nas grandes reformas legislativas. Ela começa muito antes: começa no trabalho digno, na proximidade, na confiança, na sensação de que cada pessoa conta. Começa quando uma sociedade não aceita que o crescimento económico conviva com a exclusão persistente.

Neste ponto, a responsabilidade não é apenas do Estado. É também das empresas, das organizações da sociedade civil, das lideranças locais, das comunidades. A economia não é moralmente neutra: as decisões que tomamos sobre salários, estabilidade, conciliação familiar, formação ou responsabilidade social têm impacto direto na coesão democrática.

Recentemente, escrevi sobre a mensagem do Papa, que nos recorda que a política e a economia só fazem sentido quando estão ao serviço da pessoa humana. Essa não é uma ideia abstrata ou confessional. É um princípio profundamente democrático. Uma sociedade que não cuida dos seus mais frágeis acaba por gerar medo, ressentimento e polarização — terreno fértil para soluções fáceis e discursos perigosos.

Cuidar da democracia é, por isso, um trabalho quotidiano. Faz-se quando um jovem encontra uma oportunidade real e não apenas um contrato temporário. Quando um idoso não se sente invisível. Quando uma família não vive permanentemente angustiada com o futuro. Quando uma empresa decide olhar para as pessoas como parte da solução e não como um custo.

Coimbra, com a sua história de pensamento, de serviço público e de proximidade comunitária, tem muito a dizer neste debate. A democracia não se salva sozinha. Precisa de ser cuidada. E esse cuidado começa, sempre, pelos que têm menos voz.

Porque no dia em que deixarmos de cuidar dos mais frágeis, não será apenas a justiça social a falhar. Será a própria democracia.

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