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- Liturgia

Vós sois o sal da terra.  Vós sois a luz do mundo.

P. Manuel Carvalheiro

Padre Manuel Carvalheiro - Comentário à liturgia dominical

O Evangelho deste domingo é a continuação do escutado no domingo passado e correspondem ao início do sermão da montanha. Logo depois da proclamação das bem-aventuranças, esses princípios fundamentais para integrar o Reino dos Céus, Jesus recorre a duas parábolas para indicar a missão daqueles que aceitam esta nova dinâmica, desafiando a uma inversão de lógicas e de sentidos.

Mesmo sem nos fixarmos no contexto cultural em que as metáforas do “sal” e da “luz” foram proferidas, o uso comum que ainda hoje fazemos destes elementos é suficiente para nos situarmos e deixarmos interpelar pela sua força expressiva.

A experiência da comida insípida, quando se esquece o sal; a escuridão quando falta a luz durante a noite… É assim a humanidade, sem a presença de Deus. O Reino que Jesus anuncia é lugar de sabor, de sentido; de luz, de plenitude.

Como em todos os tempos, também o nosso precisa de luz, de horizonte, de esperança. Os nossos contextos existenciais precisam de ser iluminados pelos critérios do Alto. Para isso, havemos de nos sentir pobres, necessitados, dependentes do Amor de Deus e dos irmãos. O próprio Jesus manifestou este amor dependente, dando-se totalmente, centrado que estava em fazer a vontade do Pai (Jo 6,38) e em manter a comunidade dos discípulos; “enquanto estava com eles, Eu guardava-os em ti (…), não te peço que os retires do mundo, mas os livres do maligno” (Jo 17, 12.15).

“Vós sois a luz do mundo” (Mt 5, 14). Jesus associa-nos à luz que é Ele mesmo, “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8,12); somos luz reflexa. A luz é Deus, que em nós brilha. Esta é a nossa condição e não a podemos negar. Nem podemos perder o sabor, nem nos podemos esconder. Há uma missão que nos é confiada a favor do mundo, que tem de levar um acrescento em sabor, a “marca” do Evangelho.

No batismo somos tocados pela luz de Deus e tornados seus filhos. Assim diz o ritual do batismo, quando se entrega a vela: “A vós, pais e padrinhos, se confia o encargo de velar por esta luz, para que os vossos pequeninos, iluminados por Cristo, vivam sempre como filhos da luz.

Jesus faz diretamente a associação da luz de Deus que em nós brilha às boas obras. Este é o testemunho que conduz ao louvor divino; o sentido da vida cristã é “glorificar o Pai que está nos Céus” (Mt 5, 16).

Mais. É sublinhada uma diferente acentuação ética, que tem de nos inquietar: a vida do cristão no mundo não é só evitar o mal, mas tem de ser uma opção por fazer o bem, as boas obras. Assim se edifica a nova humanidade, cuja “luz despontará como a aurora” (Is 58,8).

Iluminados por esta luz que é Jesus Cristo, e para que brilhe em nós, temos de nos comprometer, superando um certo alheamento da realidade do mundo, que busca sensações e estados de espírito, marcadamente individualistas; temos de superar conceitos muito “terráqueos” como “qualidade de vida”, para compreender outros horizontes, amiúde mais exigentes; precisamos de nos aproximar dos outros, em comunidade, evitando a tentação do individualismo ou do pequeno grupo à parte, que alimenta uma bolha de outros sabores; temos de nos responsabilizar pela missão que é uma tarefa tão minha como tua, evitando a tentação de pensar que é só tua ou de que é da Igreja como um sujeito coletivo, onde nunca me incluo.

Vós sois o sal da terra, vós sois a luz do mundo é inspiração para uma espiritualidade cristã verdadeiramente incarnada.

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