Em certos estratos da nossa sociedade circula a ideia de que, sendo pelos pobres, se é necessariamente contra os ricos; sendo pelos ricos, se é contra os pobres. Nada mais contrário à doutrina cristã. Paulo ensina, desde o início, na sua carta aos Gálatas (Gl 3, 28), a comunhão e a igual dignidade entre todos os crentes em Cristo, independentemente de sua origem étnica (judeu ou grego), estado social (escravo ou livre) ou género (homem ou mulher). Mas, com o rodar do tempo, e ao passar pelas várias culturas, este valor esbateu-se e criaram-se barreiras. Todos nos lembramos da Idade Média com a proverbial catalogação de clero, nobreza e povo… e burguesia…
No século XVII, a sociedade francesa, com uma organização acentuadamente piramidal, apresentava-se muito estratificada com barreiras quase intransponíveis entre as várias classes sociais. O Padre Vicente de Paulo, proveniente do povo, sem renegar a sua origem humilde, soube romper estas barreiras. Desempenhava-se bem da sua missão junto dos nobres, nunca para se colar à nobreza, mas para despertar neles a consciência cívica e cristã de ajuda aos mais necessitados, geralmente de origem camponesa, a que ele tinha orgulho em pertencer. Repetia várias vezes a sua antiga condição de guardador de porcos e de ovelhas.
Sempre que vemos o Padre Vicente na esfera da nobreza, nunca acontece por ambição pessoal, mas pelo cumprimento de um dever, de uma ordem superior, que ele entendia como sendo expressão da vontade de Deus. Assim, entra na família Gondi pela mão do Padre Bérulle; na corte e na família real, a pedido do rei; na administração do reino, no que toca aos assuntos da Igreja, a pedido da rainha. E de cada uma destas entradas junto da nobreza, nasce uma obra em favor dos pobres e das gentes humildes, esquecidas pelas classes dirigentes. Há sempre uma iniciativa a enobrecer e a dignificar os mais humildes e desprezados da sociedade francesa. Assim, do seu contacto e estadia na família Gondi nascem as “Missões e a urgência da evangelização do pobre povo do campo”, a reforma das prisões e a assistência aos prisioneiros. Da sua presença na corte, nasce a reforma do episcopado e do clero, em geral, através de uma seleção criteriosa dos candidatos. Em contrapartida, do contacto com as misérias da sociedade e da Igreja, nascem obras que marcaram a história enquanto resposta para ultrapassar essas misérias. Em contacto com um clero ignorante e com comportamento pouco condizente com a função sacerdotal, nascem as Conferências da Terças-feiras e os Seminários. Do contacto com famílias, vítimas da doença e da fome, nascem as “Caridades” precursoras daquilo que hoje chamamos “Apoio Domiciliário”.
E, em cada uma destas iniciativas, o Padre Vicente lembrava ao “poder” que havia muita gente a sofrer, devido à fome, à guerra, ao mau funcionamento das instituições, como no caso das prisões. Os homens e as mulheres do poder, da nobreza, “começaram a sair da sua bolha”, desciam ao terreno e descobriam uma outra cidade de Paris, uma outra França. A lista é enorme. Desde Maria de Gonzaga, futura rainha da Polónia, a duquesa de Aiguillon, sobrinha do cardeal Richelieu, a senhora Fouquet, Carlota Montmorancy, mãe de Condé… São alguns nomes das mais de 400 senhoras nobres, motivadas por Vicente de Paulo, dedicadas e empenhadas em obras sociais e de caridade. Era notável a autoridade que este camponês, proveniente das terras longínquas da Gasconha, exercia sobre esta nobreza. Sempre que uma necessidade urgente aparecia, tinha por hábito reunir todas estas senhoras pertencentes à mais alta aristocracia e à burguesia endinheirada, expunha-lhes a necessidade em causa e, com a sua palavra direta, simples conseguia o que pretendia. Através delas, também os maridos, alguns desempenhando cargos de responsabilidade na administração pública, se renderam à motivação provocada pela palavra e pelo testemunho de vida deste sacerdote humilde que, com tanta facilidade, percorria, encurtando-os cada vez mais, os caminhos entre pobres e ricos falando a uns e a outros do amor de Deus que a todos envolve, conferindo-lhes igual dignidade. Bem elucidativa desta autoridade exercida pelo Padre Vicente é este diálogo entre Maria de Gonzaga e senhora de Lamoignon:
– Não lhe parece – disse-lhe certo dia, a senhora de Lamoignon – que, à imitação dos discípulos de Emaús, podemos dizer que os nossos corações se sentiam a arder no amor de Deus, enquanto nos falava o Padre Vicente? Trago o coração embalsamado com o perfume do que nos disse, este homem de Deus.
– Não temos de que admirar-nos – respondeu Maria de Gonzaga. Ele é o anjo do Senhor que traz em seus lábios a chama do amor divino que lhe arde no coração.
– Exatamente – notou uma terceira. E a nós só nos compete participar do fogo desse amor” 1.
E o entusiasmo era tal que cada uma usava da sua influência para andar mais de pressa, certamente por zelo, mas sem excluir uma pontinha de vaidade. O Padre Vicente ia-lhes dizendo que era preciso trabalhar em conjunto e mais devagar para as obras serem mais bem pensadas. E, na verdade, fizeram caminho a ponto de o Padre Vicente afirmar serem “autêntica dedicação de santos a servir a Deus nos seus membros doridos” 2.
Algumas destas senhoras colocaram parte dos seus bens ao serviço destas obras. Entre elas vale a pena destacar a duquesa de Aiguillon, a quem o seu tio, cardeal Rechilieu, deixara toda a sua riqueza e que ela utilizou nas obras caritativas sob a orientação do Padre Vicente.
Estas senhoras, embora fazendo parte de uma sociedade naturalmente altiva, elitista e discriminatória, instruídas pela palavra de Vicente e modeladas pelo seu testemunho de fé e de humildade, debruçam-se sobre o povo sofredor e multiplicam-se em iniciativas e trabalhos para aliviar os seus sofrimentos. A paz social voltou com o fim da guerra civil (chamada da “Fronda”), certamente também porque estas “Senhoras da Caridade”, representantes das classes superiores, se tinham voltado com amor, para o povo, e com este seu gesto revelaram proximidade e empatia para com os pobres e os deserdados 3. Isto vale mais do que todos os decretos legislativos! O Padre Vicente foi o mentor deste trabalho de transformação social.
P. José Alves, CM

