- Para nos pensarmos

Judas, esse “traidor”?

Jorge Cotovio

Jorge Cotovio

Em plena Semana Santa, é incontornável mergulhar no mistério da Paixão (passus) e Morte do “Rei dos judeus”.

Como mistério, todos estes acontecimentos que tanto impressionaram os evangelistas (e que tanto nos emocionam) serão mais para serem vividos e refletidos à luz da fé, do que plenamente entendidos. Sim, por mais voltas que dêmos, nunca os conseguiremos compreender, na totalidade, à luz da razão – o que deixa margem para “especulações”, claro…

Nas mentes dos que nada ligam a estas coisas – ateus, agnósticos, céticos, indiferentes, etc. – tudo isto é fantasia. Para os que ligam e absorvem literalmente os relatos evangélicos, tudo se terá passado assim mesmo, tal como ouvimos na leitura do extenso relato da Paixão. Para os que ligam e sentem a Palavra de Deus para além das palavras humanas, haverá nas narrações aparentes incoerências – por isso mesmo é que estamos perante um “mistério” – mas que em nada beliscam a essência da mensagem.

Perante uma tragédia desta amplitude, um olhar da política e do direito procurará encontrar um culpado – não vá a culpa morrer solteira… E todos os olhares se voltarão, imediatamente, para… Judas. Sim, esse “traidor”, que entregou o Mestre aos soldados romanos, ainda por cima a troco de dinheiro!

 Deixem-me ser, durante algum tempo, “advogado do diabo”. Judas terá mesmo tido estas intenções? Terá sido ele a infeliz criatura escolhida para se cumprir um guião previamente elaborado? Jesus tinha mesmo de morrer para nos salvar, precisando que as coisas sucedessem desta forma?

Para anunciar o Reino de Deus e provar como podemos ser verdadeiramente felizes/ bem-aventurados/ salvos, bastaria a Jesus o seu testemunho de vida, quiçá com uma morte “natural” – tal como sucedeu aos profetas que o antecederam. Como um profeta (bem) diferente, como “Filho de Deus”, depois da morte seria óbvia a ressurreição. Para mostrar mesmo que “está vivo”.

Contudo, Jesus – tal como muitos dos profetas dos tempos modernos (e antigos) –  arriscou a vida ao falar como falou, ao chocar com a mentalidade dominante e, sobretudo, a enfrentar com assertividade – e sem papas na língua – a classe religiosa. Jesus teria a consciência nítida que o iriam matar. Tal como hoje, Óscar Romero, João Paulo II (quase), Gandhi, Luther King, missionários e cristãos anónimos (e outros pacificadores) denunciadores de injustiças em tantas e tantas partes do mundo.

Creio mesmo que Jesus – como Homem – terá tentado evitar a sua morte desta forma terrível: uns dias antes, prevendo que o iriam matar, afasta-se para Efraim; pede, sem sucesso, ao trio de sua confiança (Pedro, Tiago e João) para o protegerem (e os marotos, com os olhos tão “pesados” depois de uma farta ceia, adormeceram por três vezes!!!); pede ao Pai, por duas vezes, para “se possível”, afastar dele “este cálice” – embora logo a seguir diga aceitar a Sua vontade; grita, na cruz, “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?”, tal o sofrimento físico e emocional que sente. Creio, pois, que Jesus, para nos salvar, para nos demonstrar quanto nos ama, não teria de morrer desta forma, não teria de cumprir um plano pré-estabelecido. Tudo terá acontecido no contexto das suas “mais amplas liberdades”.

Voltemos ao “bode expiatório” chamado Judas. Será que ele foi mesmo “traidor”? Judas terá sido um apóstolo (muito) diferente dos demais. Simpatizante de movimentos radicais que lutavam, à força, pela libertação de Israel do domínio romano, ficou fascinado por Jesus, quiçá, a princípio, por interesses políticos, mas, posteriormente, “por amor”. Olhemos esta interpretação – quanto a mim, distinta – transcrita no Guia do catequista – 6.º ano, da edição do Secretariado Nacional da Educação Cristã:

“Porque é que Judas se prestou a este papel? Por causa da soma de trinta moedas de prata que, segundo Mateus, foi o pagamento da ‘traição’? Provavelmente, não… Judas amava Jesus, como todos os discípulos. Contudo, não estava satisfeito com a forma como o Mestre conduzia o processo de instauração do Reino. Judas estaria convencido de que só a ação violenta resultaria; mas Jesus não aceitava esse caminho. Assim, Judas tentou ‘forçar’ Jesus a agir: entregando-o aos inimigos, obrigava-o a tomar posição. No entanto, Jesus não reagiu no sentido que Judas esperava e deixou-se prender. Em desespero, suicidou-se”.

Perante os relatos da Morte e Paixão de Jesus, e independentemente de guiões ou traições, também eu me emociono. E choro os meus pecados: também o “nego” (ou, no mínimo, o oculto) com as minhas incoerências; também muitas vezes não estou vigilante e me deixo levar pelos meus instintos; também o aclamo efusivamente para depois fazer coro com outros para o “condenarem”… No fundo, identificamo-nos com o Povo e com a atitude titubeante dos discípulos…

Modéstia à parte, eu identifico-me, especialmente, com “o discípulo que Jesus amava” (umas cinco vezes referido por João). Um discípulo que tem o meu nome – Jorge –, que tem o nome de cada um de nós. E é esta certeza de “sentir-me Amado” – fruto do extra-ordinário mistério da Vida, Morte e Ressurreição de Jesus –, que me enche, que me realiza como pessoa, como cristão, como cidadão.

Uma santa Páscoa!

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