1 São mais de quarenta os anunciados candidatos às próximas eleições presidenciais de 18 de janeiro – uma farturinha nunca vista –, número que poderá ser substancialmente encurtado face às dificuldades de muitos deles em obterem, sequer, as 7.500 assinaturas necessárias para validação junto do Tribunal Constitucional. Contudo, novo máximo, são sete os postulantes apoiados por partidos com assento parlamentar, em demonstração, assim evidente, que, depois, o eleito, será, quem diria, o presidente de todos os portugueses. Na realidade, num país com tantos e inestimáveis almejantes à chefia de Estado, que aspirações podem estar reservadas ao pretendente histórico da Casa Real?
2 Se dúvidas restassem sobre a ambivalência dos rankings, quaisquer eles sejam, a consideração, pela insuspeita The Economist, de que a economia portuguesa foi aquela com melhor desempenho em 2025 entre 36 países maioritariamente desenvolvidos, arrasava-as absolutamente. De facto, a avaliação dos indicadores escolhidos – inflação, crescimento económico, emprego e desempenho bolsista – poderia, como aconteceu, levar a tal resultado. Contudo, com uma economia débil, que compara com melhorias anémicas, assente na volatilidade do turismo, e pagando salários de miséria, a realidade sentida pela generalidade dos cidadãos é, nas suas tantas dificuldades, outra. E bem diversa, para pior, daquela que se poderia deduzir de um trabalho jornalístico ainda assim importante para os nossos interesses coletivos.
3 Com os bolsos ilusoriamente cheios com o subsídio de Natal, talvez mais receosos de realidades passadas do que de futuro, os portugueses voltaram à greve geral, desta feita sob o amparo, raro, das duas centrais sindicais. E foi uma jornada festiva que alguns, com certeza funcionários públicos, souberam ainda melhor aproveitar através de umas seguramente saborosas mini férias de quatro dias…
4 A única distribuidora sobrevivente, perante o descalabro negocial que são as vendas sobretudo no interior do país, ameaça com o corte de entrega de jornais nos distritos de Beja, Évora, Portalegre, Castelo Branco, Guarda, Viseu, Vila Real e Bragança. Lembrando-me da frustração que senti quando, um dia destes, em Constância, me dei conta da não existência em banca da imprensa nacional, fico, muito apreensivo, a pensar na escuridão democrática, no atentado à liberdade que tal medida poderá provocar em tão substantiva parte do território. E a culpa não será apenas das instituições, antes, essencialmente, da falta de leitores que, neste cantinho da Europa – atente-se nas vergonhosas tiragens dos principais diários e semanários – aplicam, nos quiosques, o pouco dinheiro disponível não em informação impressa… mas em raspadinhas!
5 Apesar das mais de duas mil propostas de alteração apresentadas pelos diversos partidos da oposição, a Assembleia da República aprovou, sem o desvirtuar no essencial, e graças à abstenção do PS, o Orçamento de Estado para 2026. Mau grado isso, os socialistas não resistiram à sua costumeira ‘birrinha’ quando, através de uma coligação negativa com o Chega, acrescentaram mais alguns pequenos troços de SCTUS sem pagamento de portagem – que, assim, todos passamos a esportular, mesmo não os utilizando –, ainda a recusa do aumento (em sete euros anuais) das propinas do ensino superior, que o governo destinava à valorização da ação social escolar.
6 Atento nas conclusões, as possíveis, alegam, da COP 30, agora realizada no Brasil, e não rejubilo como o fazem certos otimistas, designadamente a delegação europeia. Efetivamente percorreu-se caminho no financiamento, deram-se alguns passos relevantes para mitigar os receios de aquecimento global que ficaram plasmados em Paris, mas cuido que a falta de ambição na desflorestação, e a não menção ao abandono dos combustíveis fósseis, deixam um generalizado amargor em quem, quase todos nós, menos empenhados nos grandes negócios do petróleo, sobretudo preocupados com a salvaguarda da nossa Casa Comum, vê como insuficientes os avanços concretos alcançados.
7 Nas idiossincrasias que culturalmente as individualizam, inquieta-me o aumento da tensão política entre o Japão e a China a propósito de Taiwan. Se as relações institucionais entre os dois gigantes asiáticos sempre se pautaram por contradições históricas, a recente consideração da nova primeira-ministra nipónica, Sanae Takaichi, quando sugeria uma potencial ação militar do seu país em relação à antiga Formosa no caso de um bloqueio chinês, foi julgada pelo governo de Xi Jinping, que continua com manobras militares na cercania da ilha, como o ultrapassar de uma linha vermelha…que não devia ter sido tocada.
8 Celebração dos 25 anos de uma parceria estratégica – que, em boa verdade, tão poucos frutos deu quando comparada com as presenças da Rússia e da China – a cimeira União Europeia-União Africana, entretanto reunida em Luanda, reafirmou a ambição dos líderes dos dois continentes no aprofundar da cooperação em domínios essenciais como a segurança, integração económica, comércio, transição verde e digital, mobilidade e desenvolvimento humano. Queira Deus que tão abrangentes propósitos de solidariedade internacional alcancem, finalmente, o concretizar de efetivas parcerias entre países historicamente próximos tendo em vista um mundo mais justo, um futuro mais estável, inclusivo e sustentável.
9 As derivas políticas de Trump, cuidava-se, tais os desaforos, já surpreenderiam a ninguém. A última ingerência em relação à Europa, porém, ultrapassa tudo o que seria imaginável quando vem afirmar – atribuindo as culpas à emigração, em função do que a sua administração iria apoiar movimentos nacionalistas, isto é, partidos de extrema direita – que as nações europeias estão, nem menos, em declínio e em erosão civilizacional, governados por líderes fracos que levam, palavras suas, a nações decadentes e em autodestruição. E, perante um generalizado, ensurdecedor e subserviente silêncio, a única réplica que se ouviu aqui pelo Velho Continente foi através da voz de António Costa, presidente do Conselho que, no quadro da nossa soberania, se recusou a aceitar a ameaça de interferência dos EUA que, contudo, sublinharia ainda, não deixam de ser, pois evidentemente, um aliado e um parceiro económico importante. Tão poucochinho perante tamanho agravo!
António Cabral de Oliveira

