Precisamos de olhar “com vistas largas” a sustentabilidade e a continuidade das nossas comunidades cristãs, agora constituídas em «Unidades Pastorais», não só porque escasseiam as vocações consagradas – especialmente presbíteros –, mas, sobretudo, porque queremos retomar a sinodalidade da Igreja.
Nesta linha, tudo aponta para a corresponsabilidade de todos – leigos, clérigos, consagrados –, potenciando os diferentes dons e vocações. Neste particular, as alíneas b) e c) do ponto 3.2 das “Pistas para a fase de implementação do Sínodo” são de sumíssima importância, pois, na esteira do Documento final da XVI Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos, espera-se, das Igrejas locais, “o acesso efetivo a funções de responsabilidade e a papéis de direção que não exijam o sacramento da Ordem, por parte de mulheres e homens não ordenados, sejam Leigas ou Leigos, sejam Consagradas ou Consagrados”, assim como, “a experimentação de formas de serviço e de ministério que respondam às necessidades pastorais em diferentes contextos”.
Na fita da (minha) história, recuo umas cindo décadas. Vejo-me, juntamente com os colegas do grupo de jovens (todos catequistas), a planear as principais atividades da paróquia de Santa Clara, muito assentes na catequese e nos tempos litúrgicos. O Padre Sebastião confiava “nos seus rapazes” e dava luz verde. Sorria perante uma ou outra irreverência juvenil e sentia um enorme orgulho por ver como trabalhávamos com entusiasmo. Devo muito – mesmo muito do que sou – a estes princípios, num tempo em que eram mais os presbíteros do que as paróquias e em que os leigos se sentiam, geralmente, meros ouvintes e assistentes.
Recuo agora até aos finais do século passado. A convite do Senhor D. Albino Cleto, falava a seminaristas sobre a vocação, dizendo-lhes, a determinado momento, que, “daqui a 25/ 30 anos um padre pouco mais tempo terá senão para correr de comunidade em comunidade para celebrar missas e atender pessoas para acompanhamento espiritual e confissões”… Já nessa altura, os algoritmos apontavam essa tendência…
Entretanto, por esses anos 90, o leigo “Senhor Fausto Branco” era o efetivo “animador” das paróquias de Lamas e de Bendafé. Era ele quem geria as comunidades, chegando mesmo a presidir a cerimónias fúnebres. O pároco, Pe. Joel Antunes, na prática, assumia, preferencialmente, a sua missão (mais) específica: celebrava as Eucaristias e administrava os sacramentos. São dele estas palavras recentemente partilhadas comigo: “Fausto Branco era um homem de muita fé e de muito amor à Igreja. Questionei-me algumas vezes se eu, que era padre, teria o mesmo amor. Tinha um bom relacionamento com toda a gente, jovens e adultos. Já na linha do futuro Papa Francisco, entendia que a Igreja era para todos e não rejeitava ninguém por falta de diálogo, procurando ser sempre atencioso e acolhedor. Deixava o conforto da sua casa a que tinha direito para se dedicar ao serviço dos paroquianos. E, curiosamente, toda a gente gostava dele. Fazia um excelente trabalho”.
Também África é um exemplo a este nível, desde há muito, com catequistas animadores de comunidades, garantindo a maturação das sementes lançadas pelos missionários que, de tempos a tempos, lá vão passando.
Voltemos ao presente. Sinto que o futuro passa por aqui: leigos a presidir a comunidades (assim os haja e sejam estimulados para tal). E mais do que ser um leigo a presidir, vejo ser uma “equipa”, porque desta forma – sinodal – trabalha-se melhor e evitam-se as tentações do poder/ protagonismo. E como já defendi há anos, esta liderança deve ser assumida pela Equipa de Animação Pastoral (EAP), qual “motor e trave-mestra de toda a dinâmica e animação pastoral” trabalhando “estreitamente unida” aos clérigos e em “estrita ligação” com o Conselho Pastoral (citações retiradas da legislação diocesana acerca das EAP).
Desta forma, atenua-se a “peste do clericalismo” (Papa Francisco), potenciam-se os importantes órgãos de participação e corresponsabilidade existentes, valoriza-se o papel dos leigos e concretizamos um dos principais desígnios do último Sínodo dos Bispos.
Com esta nova configuração, o centro (humano) da comunidade transfere-se do pároco para a própria comunidade, representada pela EAP. E esta, independentemente da frequente mobilidade dos presbíteros, terá capacidade para garantir a continuidade de planos, de atividades, de projetos, de rotinas, sem sobressaltos e ruturas.
Perante uma matéria de tão grande latitude (e complexidade), ouso, certamente, continuar esta reflexão em próximas edições.

