Há semanas que têm um sabor diferente. Esta é uma delas.
Chamam-lhe a semana da alegria — e não é por acaso. Há qualquer coisa no meio do caminho quaresmal que nos levanta o olhar, que nos recorda que o deserto não é o destino final. É como se, por um instante, víssemos ao longe a luz da Páscoa a despontar. Como se Deus nos dissesse, com suavidade: “Continua. Vale a pena.”
Mas a alegria cristã nunca é superficial. Não é ruído. Não é euforia passageira. É uma alegria que nasce da certeza de que somos amados — mesmo quando ainda estamos em processo, mesmo quando ainda estamos a caminho.
E talvez seja precisamente aqui que entra um dos maiores dons que Deus nos deu: a liberdade.
Vivemos rodeados de escolhas. Algumas pequenas, quase banais. Escolher o clube de futebol. Escolher em quem votar. Escolher o que vestir, o que dizer, como reagir. Costumo dizer — meio a sério, meio a brincar — que há três coisas das quais não abdico: a minha fé, o meu clube de futebol e a minha convicção política. São escolhas que fazem parte de quem sou.
Mas a liberdade que Deus nos dá vai muito além dessas decisões do quotidiano.
É uma liberdade que toca o essencial.
A liberdade de escolher o bem ou o mal. A liberdade de construir ou destruir. A liberdade de amar o outro, ou de nos fecharmos em nós próprios.
Todos os dias, em pequenas e grandes decisões, exercemos essa liberdade. Quando escolhemos responder com paciência em vez de irritação. Quando decidimos escutar em vez de julgar. Quando optamos por levantar alguém em vez de o denegrir.
E é aqui que a liberdade ganha um peso novo: ela não é apenas um direito — é uma responsabilidade.
Porque a verdadeira liberdade não é fazer tudo o que me apetece. É escolher aquilo que me faz mais humano. Aquilo que me aproxima mais de Deus. Aquilo que constrói.
Uma liberdade sem sentido transforma-se facilmente em egoísmo. Mas uma liberdade assente no amor e no serviço transforma-se em caminho de santidade.
E é exatamente para isso que caminhamos.
Estamos a entrar nas últimas semanas da Quaresma. O tempo aperta — mas, na verdade, a oportunidade alarga-se. Ainda vamos a tempo. Ainda vamos sempre a tempo.
Tempo de nos aproximarmos do Pai. Tempo de regressarmos ao essencial. Tempo de deixarmos para trás aquilo que já não nos faz bem.
Porque a Páscoa não é apenas a celebração da vitória sobre a morte. É a celebração da libertação. Libertação do pecado, libertação do que nos prende, libertação do “homem velho” que tantas vezes insiste em ficar.
Mas essa libertação não acontece sem um movimento interior.
É preciso descer.
Descer das nossas certezas. Descer das nossas teimosias. Descer do nosso querer ter sempre razão. Descer da incapacidade de olhar à volta e reconhecer que o outro é, tal como eu, livre e amado por Deus.
O Senhor não fez uma Igreja de perfeitos. Não fez uma Igreja de santos já prontos, imaculados, sem falhas. Fez uma Igreja de pecadores. De gente em caminho. De gente ferida — mas desejosa de cura.
E é com essa consciência que caminhamos.
Não com a arrogância de quem já chegou, mas com a humildade de quem procura.
A liberdade que Deus nos dá é, no fundo, um convite. Um convite diário a escolher o amor. A escolher o bem. A escolher Deus.
E talvez, nestas últimas semanas antes da Páscoa, o desafio seja este: usar a nossa liberdade não para nos afirmarmos — mas para nos convertermos.
Porque no fim, a verdadeira liberdade não é fazer o que queremos. É tornarmo-nos aquilo para que fomos criados: Filhos. Amados. Livres.
A caminho da santidade.

