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«O que falta nas nossas comunidades é o acolhimento»

Ao iniciar a Quaresma, 40 dias de preparação até à Páscoa, o Correio de Coimbra falou com o padre Francisco de Morais Silva. Responsável por 11 paróquias em Penacova, o sacerdote olha este tempo que pede calma e um convite à conversão.

“A Quaresma é o caminho para esvaziar o ego e acolher o Cristo que encarna na nossa vida”

Natural do Brasil, o padre Francisco é sacerdote da Diocese de Coimbra. Atualmente a dar os primeiros passos como pároco de 11 paróquias em Penacova. Em entrevista indica os desafios da dispersão pastoral, as diferenças culturais na vivência da fé e o convite central deste tempo: a reconciliação através de uma espiritualidade encarnada.

O Padre Francisco está em Penacova há cerca de um ano, mas a sua caminhada na nossa diocese já leva algum tempo. Como foi o seu percurso até aqui? 

Sim, estou em Penacova há um ano, mas o meu percurso em Portugal começou muito antes. Estive cá como seminarista em 2010 e 2011. Depois, como Missionário Salvista, estive no concelho de Montemor-o-Velho. Em 2019, pedi uma experiência na Diocese, passei pela paróquia de São José, em Coimbra, com o Padre Jorge Santos, onde estive cinco anos. Gostei muito da experiência e decidi ficar. No ano passado, fui oficialmente incardinado na Diocese de Coimbra.

De Coimbra para Penacova, a realidade pastoral é muito diferente? 

Sim, muito diferente. Embora a minha passagem por Montemor já tenha sido uma “prefiguração”, Penacova é muito mais desafiante. Tenho 11 paróquias e são paróquias pequenas, muito dispersas, onde se nota que muita coisa se perdeu ou ficou “parada” no passado. Há ainda uma visão muito centrada na figura do padre; as pessoas sentem dificuldade em realizar celebrações se o sacerdote não puder estar presente.

Sendo natural do Brasil, que contrastes nota na forma como vivemos a Quaresma em Portugal face ao que vivia no seu país? 

No Brasil, a Quaresma é muito marcada pela “Campanha da Fraternidade”, que traz sempre um tema social urgente — como a ecologia ou a pobreza. Há uma influência forte da Teologia da Libertação e um contraste interessante entre as Comunidades Eclesiais de Base e o Renovamento Carismático. 

Aqui em Portugal, a Quaresma é mais tradicional, muito centrada no Senhor dos Passos e na Via Sacra, na penitência e depois, pouco na alegria. O que mais me chocou, no bom sentido, foi a Visita Pascal. No Brasil vivemos intensamente o Tríduo Pascal; aqui, parece que o Domingo de Ressurreição se “dilui” um pouco na alegria das visitas às casas, o que foi uma novidade bonita.

No próximo triénio, o Plano Pastoral da Diocese foca-se na “Espiritualidade Incarnada”. Como é que isto se traduz na prática da Quaresma? 

A espiritualidade incarnada é percebermos que Jesus não está apenas “nas nuvens”, mas em toda a nossa realidade humana. Quaresma é o caminho de conversão do corpo e do espírito. É vencer o egoísmo através da partilha e da vida fraterna,  de partilhar o pouco que nós temos, sabendo também equilibrar a questão na parte do jejum, tentando equilibrar alguns impulsos para poder santificar a nossa vida. 

De que maneira é que a igreja tem de ajustar a sua linguagem ou a sua mensagem para que seja percebido o que é este jejum?

O jejum é diferente da questão do não comer para emagrecer ou para ficar elegante. Então pense que, quando nós controlamos um dos instintos que é comer, vamos ter mais capacidade de também controlar o pensamento, controlar o olhar, controlar às vezes as nossas relações, a agressividade… Depois, o fruto de que eu abdico no jejum deve ser partilhado com quem precisa.

Vivemos numa sociedade frenética. Como apresentar 40 dias de oração e penitência, especialmente aos mais jovens? 

Sem um encontro pessoal com Cristo, nada disto faz sentido. Pode-se deixar de comer chocolates ou sair das redes sociais, mas se for apenas pelo tempo quaresmal e não por Ele, é vazio. Se eu sinto que não preciso de Cristo porque tenho dinheiro ou saúde, é porque a minha fé está “desencarnada”. Nesta sociedade que vive tudo rápido, a Igreja propõe que este tempo seja para acalmar, pede-nos para acalmar.

Nesta sociedade que vive tudo rápido, a Igreja propõe que este tempo seja para acalmar, pede-nos para acalmar.

Pe. Francisco de Morais Silva

Eu gosto muito de uma frase do padre Zezinho, que falava sobre o Cristo jovem, e numa das conversas, representa um jovem que vai ter com Jesus, “eles me falaram que é pecado, mas não me falaram o que é virtude…” Ora, se eu não entender o que é a virtude do amor, do Deus que me ama, do Deus que me perdoa, que me acolhe, e que Ele está, justamente essa questão da espiritualidade incarnada, se eu não entender que Jesus encarnou para me salvar, que Ele está presente em toda a realidade da minha vida, seja humana, seja espiritual, eu não vou sentir necessidade de me reconciliar com Ele… Ele não faz sentido na minha vida cristã, para que é que eu preciso de Cristo?

Se eu tiver dinheiro, se eu tiver alimentos, se eu tiver saúde, não preciso d’Ele, porque se eu não fizer essa experiência humana e espiritual, que não é só espiritual, mas Jesus está presente sempre na minha vida, não é só quando eu vou rezar, não é só quando eu abro uma Bíblia, é todos os dias, da hora que eu abro os olhos até a hora que eu vou dormir.

O Sacramento da Reconciliação parece ser um dos mais difíceis de propor hoje em dia. Por que razão há tanta resistência? 

Quando eu cheguei cá em Portugal foi uma dificuldade que eu tive de, às vezes, aceitar as confissões que não são confissões… Na maioria, as pessoas chegam e dizem, “ah, toda a gente peca”, está bem, mas em concreto não confessavam nada, há falta de conhecimento do sacramento. Acho que falta na catequese, tanto a partir da experiência dos próprios catequistas, com a ajuda do padre, ter essa consciência do sacramento da Reconciliação como lugar da alegria, não lugar do medo, não lugar de repulsa, mas um lugar em que nós somos perdoados.

Muitas vezes, as pessoas acham que vão apenas contar segredos a um homem que pode ser tão pecador como elas. Mas o padre é apenas o meio; o lugar da escuta é de Deus. Nas nossas paróquias em Penacova, vamos começar a explicar nas missas a razão da confissão. É preciso tirar a imagem do “tribunal do medo” e substituí-la pelo “tribunal da absolvição”, onde somos sempre acolhidos, como o “Filho Pródigo”.

Eu gosto de uma frase de um santo que agora não sei qual é, mas quer dizer que o sacramento da confissão é o único tribunal que nós sempre seremos absolvidos, porque nós vamos lá para nos acusar, e muita gente às vezes vai para se defender.

O sacramento da confissão não é para se falar das virtudes, é para falar daquilo que eu preciso vencer e que eu quero vencer.

O sacramento da confissão não é para se falar das virtudes, é para falar daquilo que eu preciso vencer e que eu quero vencer.

Pe. Francisco de Morais Silva

E no caso das crianças e jovens? 

Esse é um desafio, também. Muitas vezes as crianças não têm consciência do pecado ou vão com “falas decoradas”. Se não entendem a beleza do perdão na catequese, dificilmente o entenderão na vida adulta. Numa sociedade de egos cheios, a Quaresma convida-nos a esvaziar. Ou seja, esvaziarmos de nós próprios e, de alguma maneira, moldar aquilo que temos de menos bom.

Se não entendem a beleza do perdão na catequese, dificilmente o entenderão na vida adulta.

Pe. Francisco de Morais Silva
Quaresma 2026 - Entrevista ao P. Francisco de Morais

Que imagem gostaria de ver na Igreja de Coimbra nesta Páscoa de 2026? 

Gostaria de ver uma Igreja que irradia a alegria de Cristo perante uma humanidade ferida pela guerra, pela depressão e por relações instáveis. A tecnologia trouxe rapidez, mas tirou o sentido. Corremos o risco de querer missas rápidas que apenas “massajam o ego”. 

O meu desejo é que a Igreja seja, acima de tudo, um lugar de acolhimento. Eu acho que antes de dizer, tem de rezar, tem de se confessar, tem de ir ao tríduo pascal, celebrar a Páscoa, é Cristo que acolhe. E acolhe aquele que ninguém quer acolher, aqueles são os mais fragilizados, e penso que seja esse o caminho da conversão.

O meu desejo é que a Igreja seja, acima de tudo, um lugar de acolhimento.

Pe. Francisco de Morais Silva

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