Uma sinfonia de gerações

Ana Paula Neves (Midões), Jorge Sousa Pereira (Soure) e Margarida Oliveira (Seixo de Mira) sugerem, semanalmente, os cânticos para as celebrações. O Correio de Coimbra juntou-os numa tarde de Quaresma para descobrir que, entre tubos de órgão e pautas de papel, o que os move é uma profunda sede de Deus e de serviço à comunidade.
Nunca tinham estado os três juntos… Neste âmbito de partilhar a vida, a música e o serviço à comunidade. Inicialmente, a timidez, depois a identificação a cada partilha, a cada vivência ou música. À volta da mesa estava reunida uma sinfonia de gerações.
Dos 23 anos da Margarida Oliveira aos 64 da Ana Paula Neves, passando pelos 51 do Jorge Sousa Pereira, a música litúrgica surge como o fio invisível que une estas três geografias da Diocese de Coimbra.
A história de cada um com a música sacra tem pontos de partida distintos. Margarida, investigadora na área das Ciências Nucleares, em Coimbra, confessa que a sua chegada à Escola de Música Sacra, em 2020, foi fruto de um “empurrão” dos pais durante a rebeldia da adolescência.
“A ideia que eu tinha de música sacra era o coro das velhinhas. Achava que a Igreja tinha de mudar e eu não tinha um papel ali. Hoje percebo que ainda bem que fui obrigada”, admite, com um sorriso.
Já o Jorge, assistente técnico numa escola em Soure, traz a vivência das Bandas Filarmónicas.Tocou clarinete, na banda da Gesteira, e onde é natural, mas o seu fascínio era o órgão de tubos.
Desde os 15 anos começou a tocar num pequeno órgão para acompanhar o coro e isso levou-o a ser autodidata até chegar à Escola Diocesana, onde fez o curso de música sacra, juntamente com Ana Paula Neves, de onde se conheciam.


Atualmente é membro da equipa dos Cursos Alfa, na unidade pastoral, é membro da equipa da animação pastoral e do conselho pastoral. Para Jorge Sousa Pereira, a música é uma disciplina de vida, “nas bandas filarmónicas aprende-se a respeitar os mais velhos e os mais novos, a cumprir horários e regras”.
Nas bandas filarmónicas aprende-se a respeitar os mais velhos e os mais novos, a cumprir horários e regras
Jorge Sousa Pereira
Ana Paula Neves, bibliotecária em Tábua há quatro décadas e licenciada em História da Arte, fala da música como uma paixão que lhe entrou na alma pelas mãos de vários sacerdotes.
De Midões, Unidade Pastoral de Tábua, para o mundo, a sua vida é um “périplo” musical que passou por orfeões académicos e coros mistos, mas que encontrou na “Música Litúrgica o seu verdadeiro porto de abrigo”.

Quando estão nos ensaios, Ana Paula esclarece que “não vão fazer concertos” mas que são o coro, “vamos ajudar a Assembleia a cantar, porque no dia em que eles cantarem, nós nem precisamos estar aqui; o coro só existe porque a Assembleia precisa”.
A cada semana, a sugestão



A dinâmica semanal de enviar as sugestões para o jornal torna-se, para os três intervenientes, um momento de espiritualidade. Jorge confessa que gosta de “pegar nas leituras e rezar o que lá está escrito”, enquanto a Margarida acrescenta um olhar de consciência social.
“Gosto de refletir a liturgia à luz da justiça social da Igreja. Os cânticos podem-nos iluminar para a realidade que vivemos, desde a guerra na Ucrânia, por exemplo”, indica.
Ana Paula Neves sublinha que “a escolha dos cânticos é também uma forma de ajudar os outros ministros e a comunidade a entrar no mistério da celebração”.
A conversa fluiu para as dificuldades comuns: a falta de renovação geracional e o “combate” ao comodismo pós-pandemia, em Midões, Ana Paula não está a conseguir fazer a renovação. “É o grande problema neste momento”.
“Eu digo que amo de coração a Música Sacra, e a Música Litúrgica, e é o que me faz, o que me motiva, se eu realmente consigo empurrar ou atrair, também, as pessoas. Neste momento estou a dirigir o Coro da
Unidade Pastoral, para além do Coro da Paróquia de Midões, e percebemos, já há algum tempo, que precisamos todos juntos uns dos outros, com a carência de padres, porque ficámos, apenas com um padre em quinze paróquias, sou também ministra da Palavra e da Comunhão”, partilha.

A Margarida, responsável do coro da Unidade Pastoral de Mira, acrescenta ainda que “a música sacra pode ser uma barreira para os mais novos se não houver uma ponte de formação”.
Na Semana Maior

Na Semana Santa há muito em que pensar, decidir, ensaiar e “chegar a horas às celebrações”. No Tríduo Pascal, a música envolve e cria ambientes distintos.
Para o Jorge, a máquina já está “oleada” com os livrinhos que ele próprio organizou em Soure, com os cânticos indicados de cada celebração, “que todos já conhecem e cantam”.
A Margarida vê a Quaresma como “um tempo de fragilidade e transformação e esta fragilidade sente-se ao nível da música, um regresso ao essencial, onde o instrumento deve apenas acompanhar o coro e nunca ser um recital sozinho”.
“A identidade cristã não nasce da performance nem da influência, e nós, como coros, também não estamos lá para fazer uma performance, estamos para ajudar a melhor viver o mistério da fé”, refere.
Já Ana Paula recorda que, quando começou a Unidade Pastoral de Tábua, há cerca de 15 anos, foi “fazer ensaios a todas as paróquias” para que o coro cantasse nas celebrações, e confessa ter sido uma dinâmica “cansativa mas muito desafiante”.
“Agora fazemos uns dois ensaios, já nos conhecemos, já sabem o meu jeito de ensaiar… Mas digo sempre: atenção à leitura dos versículos, eu prefiro que errem uma nota, do que errem uma palavra; porque tudo o que aqui está é sagrado, é para ser bem dito e bem pronunciado, com os silêncios necessários. Cantar também é isto”, conta
Eu prefiro que errem uma nota, do que errem uma palavra
Ana Paula Neves
Quase a terminar a conversa foi lançado o desafio: “qual o cântico que mais vos toca em tempo de Quaresma?”
Jorge não hesita: “Jesus tomou consigo (Pedro, Tiago e João)”, do Padre Carlos Silva, onde a “simplicidade e a ligação entre a Palavra e a música fascinam”.
A Ana Paula, visivelmente emocionada, recorda o Salmo do Domingo de Ramos, salmo 21, “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?”. Num momento de fragilidade familiar, com o pai internado, foi a música que a segurou.
“Foi uma epifania qualquer que não sei explicar, sem começar a chorar. Ficou-me para a vida”, partilhou.
A jovem de Seixo de Mira, Margarida Oliveira, não consegue eleger um único cântico mas assume que “a música é um grande contributo para a própria celebração, nunca deve ser vista como acessório ou como adorno, a música é um elemento fundamental”.
A música é um grande contributo para a própria celebração, nunca deve ser vista como acessório ou como adorno
Margarida Oliveira

A conversa terminou com a partilha de acordes ao piano e um “breve trautear” de quem está habituado a cantar. Na sala do piano, no Seminário Maior de Coimbra, que serviu de “cenário a este encontro inesperado”, conheceram-se três agentes pastorais, comprometidos com as comunidades e unidos pela música, dados a conhecer no Correio de Coimbra.

