Neste Domingo de Páscoa, no Estabelecimento Prisional de Coimbra, Miguel (nome fictício) foi batizado pelo Bispo de Coimbra, D. Virgílio Antunes, depois de um percurso de aproximação à fé, chegou a oportunidade de “nascer de novo”, como o próprio refere.
“Chamo-me “Miguel”, tenho 39 anos, estou preso há quase três anos e este é o meu testemunho de como a Igreja Católica me salvou neste lugar”, inicia o testemunho enviado ao Correio de Coimbra.
Quando “Miguel” chegou ao Estabelecimento Prisional de Coimbra vinha “muito mal”, era “viciado em drogas e álcool”, sem nunca ter conseguido “uma vida estável ou algum prazer de viver”.
“Quando vim preso, decidi que devia mudar de vida e que, para isso, tinha de tomar algumas decisões para poder ter estabilidade. Rezava todas as noites para que a minha vida melhorasse e pedia sempre a Deus para me mostrar o caminho. Foi aí que descobri, através de outro recluso, que havia uma ‘igreja’ na cadeia, onde aos domingos havia Missa”, relata.
Na comunidade cristã que se reúne aos domingos, “Miguel” sentiu “um grande acolhimento” e passou a ser o seu “porto seguro”.
“Quando fui lá a primeira vez, senti um grande acolhimento e parecia que fazia todo o sentido eu estar ali. Sentia uma energia tão boa… Quando liam a Palavra de Deus, estavam diretamente a falar para mim e tudo fazia sentido. Ficava muito comovido, confuso, mas, acima de tudo, feliz”, partilha.
Neste processo de aproximação à fé, “Miguel” conta que num “belo domingo, na Missa”, foi questionado pela irmã Martinha, do grupo de visitadores Mateus 25:
“- ‘Pergunto-me o que é que um homem como tu faz num sítio como este, mas agora percebo que há um propósito.’ Aquilo pôs-me a pensar e, pouco a pouco, comecei a perceber o porquê das minhas muitas questões. A minha fé tem-me ajudado diariamente em vários sentidos. Tenho posto Deus no centro de cada decisão minha”, revelou.
“Rezo todos os dias e leio o Evangelho diariamente, tentando, assim, ser a melhor versão de mim. Foi na sequência disso que decidi que fazia todo o sentido fazer parte desta tão grande família de Cristo. Então, surgiu a oportunidade de “nascer de novo”, de fazer uma grande Aliança que é o meu Batismo”, justificou no testemunho.
Este domingo de Páscoa, 05 de abril, “Miguel” vai ser batizado pelo Bispo de Coimbra, o Capelão do Estabelecimento Prisional de Coimbra, padre Nuno Santos, vai ser o padrinho e a irmã Martinha, a madrinha.
O desejo de “Miguel” ser batizado surgiu após ele sentir o acolhimento do grupo de visitadores católicos Mateus 25 no estabelecimento prisional de Coimbra e a ajuda da Irmã Martinha foi crucial na ponte entre o “Miguel” e a sua mãe, que vivia no estrangeiro e veio procurar o filho, depois de perderem o contacto. Por sugestão da GNR, foi ter à cadeia, onde o encontrou.
“A mãe esteve com ele cerca de 10 minutos, foi um encontro muito emocionado e de choque também.
E, no domingo seguinte, o “Miguel” disse-me que estava preocupado com a mãe, que sabia que ela estava em Portugal, e pediu-me para a contactar. Assim se foi criando a relação de confiança com o grupo de visitadores, que era também uma presença de suporte e de carinho, dando-lhe o aconchego que ele precisava. Daqui, foi nascendo o desejo do batismo”, recorda ao Correio de Coimbra.
A Irmã Adoradora, presença assídua nas celebrações dominicais no Estabelecimento Prisional, foi a escolhida para ser a madrinha do “Miguel” e assume ser “uma grande responsabilidade”.
“Eu achei que aceitar fazia sentido nesta relação que fomos criando. E sei que ser madrinha de um recluso é uma coisa exigente. Sobretudo porque depois, à saída, os reclusos encontram-se com uma sociedade muitas vezes hostil, na maioria dos casos, e que tem muito pouca capacidade de integrar e acolher. Portanto, isto também é um grande desafio, sobretudo na saída, nas dificuldades de retomar uma vida em liberdade”, assume.
A irmã Martinha vive com a consciência de, juntamente com o grupo de voluntários Mateus 25, serem “instrumentos de Deus e é Ele que atua”, facilitando caminhos, e “poder caminhar ao lado destas pessoas no caminho que elas quiserem fazer”.
O testemunho de “Miguel” termina com agradecimentos aos “padres João Paulo Fernandes, Diniz e Nuno Santos” e a todos os voluntários do grupo ‘Mateus 25’” pelos “abraços, as palavras dóceis e, acima de tudo, a boa companhia e conselhos tão acertados”.
“Neste meu caminho de preparação para o Batismo, nomeadamente na catequese, tenho aprendido muito com a Sr.ª Cristina, a Ir. Martinha e o P. Nuno. Agradeço-lhes muito a paciência e os bons ensinamentos que, com toda a certeza, vou levar para a vida toda”, conclui.
Neste domingo de Páscoa, D. Virgílio Antunes presidiu ao batismo do “Miguel”, que recebeu os três sacramentos de iniciação cristã (Batismo, Comunhão e Crisma), num “momento de grande alegria” e ainda ao Crisma de dois reclusos.

