Em parceria com a Comissão Diocesana da Pastoral do Turismo e Oficina Museu Monsenhor Nunes Pereira
REPORTAGEM
A serra, o silêncio e o xisto

Dias depois de celebrar Portugal, Camões e as Comunidades Portuguesas recuamos umas décadas e mergulhamos numa aldeia de xisto, no centro do país. Fajão é uma antiga vila, encaixada na Serra do Açor, perto da nascente do rio Ceira, atualmente uma das freguesias da Pampilhosa da Serra, Fajão-Vidual. Foi ali, na Mata de Fajão, que nasceu Monsenhor Nunes Pereira, no dia 3 de Dezembro de 1906.
Para lá chegar, “apanhámos boleia” com o presidente da Junta, Aurélio de Campos que “prontamente” conduziu o Correio de Coimbra pelas muitas curvas para subir a serra, depois pelas ruas de Fajão e por espaços que conhece bem.
“Chamo-me Aurélio em homenagem ao meu tio e padrinho, Monsenhor Aurélio de Campos, que foi contemporâneo do Monsenhor Nunes Pereira, que eu também tive o gosto de conhecer”, explica orgulhosamente.
Para o presidente da Junta, para falar de Fajão “tem de se falar de Nunes Pereira”. A chegada àquela freguesia de 200 habitantes, espalhadas por vários lugares, é fazer uma “viagem no tempo”. O silêncio profundo da serra parece que incomoda e a cor das casas de xisto acolhe quem chega.
“Estas casas eram muito simples, todas de xisto, a pedra que havia… Mas, contavam os meus avós, que quando se fazia a casa todos os vizinhos vinham ajudar, uma semana nesta, outra semana naquela”, recorda Aurélio.
O episódio leva-nos às aldeias que eram “verdadeiramente comunitárias” e onde a entreajuda era uma realidade. Em Fajão a “vida não era fácil”, o isolamento geográfico era o retrato vivo desse Portugal profundo. A vida corria ao ritmo das estações, entre os campos cultivados em socalcos e o pastoreio nas encostas rudes dos penedos, uma época marcada pela vaga de emigração que despovoava o interior, mas onde os que ficavam mantinham viva uma identidade comunitária inabalável.

A primeira paragem é na Igreja paroquial de Fajão, construção de 1788, um edifício de linhas sóbrias ladeado à direita pela torre sineira, unida ao corpo da igreja através de um arco. Ao lado, uma verdadeira praça, com uma fonte e um banco, as escadas levam a um simpático parque que, no verão, é espaço de passagem para a piscina.
Entramos na igreja. Ali podem ser contemplados os altares de madeira entalhada, com Nossa Senhora da Assunção em destaque, com a sua festa anual a 15 de agosto. Percorremos toda a nave central e, no fundo, encontra-se a pia batismal. Ali, um vitral dá luz e cor ao espaço, assinado por Nunes Pereira.


Augusto Nunes Pereira nasceu a 3 de dezembro de 1906, na Mata de Fajão, concelho de Pampilhosa da Serra. Filho de António Nunes Pereira e de Ana Gomes. O pai, escultor santeiro, faleceu quando Augusto tinha, apenas, nove anos. Foi o segundo de quatro filhos, cresceu e viveu a infância e a adolescência em contacto directo com a vida dura e agreste, mas sã e pura, das gentes da serra.
Este “filho da terra” foi o grande entusiasta da criação de um museu na aldeia, que acolhesse com dignidade a história da freguesia. A ideia nasceu e de imediato se lançou “mãos à obra” na recuperação de uma casa que servisse para albergar dignamente as memórias da terra.

Assim nasceu o Museu Monsenhor A. Nunes Pereira, inaugurado a 13 de setembro de 1997 e ampliado em 16 de abril de 2000, o espaço “veio despertar a consciência do rico e vasto património local e da necessidade de preservação”.
“Mais do que um espaço etnográfico queremos que se torne um espaço dedicado à vida e obra do Monsenhor Nunes Pereira, temos cá várias obras deles e também do pai; vai ficar um espaço interessante de visitar”, explica Aurélio de Campos.

Nunes Pereira, ao fechar-se na sua oficina a trabalhar a madeira ou a gravar a pedra com as próprias mãos, liga a sua missão pastoral ao suor do operário e do camponês da sua infância, naquele espaço sente-se o cheiro do forno, veem-se as alfaias do pai de Nunes Pereira e as obras do Monsenhor retratam a paciência do artista.


Em frente ao museu, também numa casa de xisto, situa-se uma Sala de Exposições Temporárias. Na aldeia, entre subidas e descidas, algumas escadas, pode ainda visitar-se o forno comunitário, o lavadouro público, passando pela antiga escola primária, dos tempos do Estado Novo, mas também pelo edifício da antiga cadeia e antigo edifício da Câmara.
A natureza é uma marca cativante da aldeia, ouve-se a água a correr. Em várias paredes surgem painéis de ardósia que remetem para os “Contos de Fajão”, antigos contos populares, de “tradição oral”, que se referem à cultura, às gentes e sabedoria daquele povo. Em livro, foi recentemente reeditado pelo Seminário de Coimbra, ação que integra as comemorações de homenagem, a decorrer até dezembro de 2026.

Quase no fim da viagem, ainda há tempo para conhecer a Capela de Nossa Senhora da Guia, de construção moderna, traçada pela mão do arquiteto Armando Alves Martins. Habitualmente fechada, é pelas mãos do sr. Vitor que tentamos conhecer.

“Está sempre fechada a capela, mas é muito bonita! Na altura da festa, no terceiro domingo de julho, isto enche-se de gente, é uma alegria”, conta o detentor da chave.
A porta abre-se e o orgulho desmedido de uma sóbria capela vê-se no olhar dos conterrâneos. Aurélio e Vitor apontam o altar, indicam para observação, duas pedras, uma em cima da outra.

“Foi o Monsenhor Nunes Pereira, é uma maravilha”, dizem.
O altar foi idealizado por Nunes Pereira, duas pedras em xisto polido, a rocha da terra. Atrás, as seis telas que retratam algumas cenas da vida de Cristo, da autoria do pintor de Fajão, Guilherme Filipe.
São duas pedras maciças, na sua rudeza original, tal como foram moldadas pela natureza nas encostas da Pampilhosa da Serra. Ao escolher estas duas rochas para sustentar o altar, Nunes Pereira apontou uma afirmação teológica profunda, elevou a matéria mais humilde e dura da sua terra ao estatuto de suporte do Divino.

A viagem por Fajão está a terminar… O fio condutor que une a arte e a vida de Monsenhor Nunes Pereira desafia-nos a subir até ao cemitério local, o lugar onde a serra se abre ao infinito e onde repousam os restos mortais do sacerdote-artista.
Se, no altar da Senhora da Guia o xisto bruto sustenta o mistério da vida, no cemitério é a mesma pedra que guarda o segredo da eternidade. O jazigo de Nunes Pereira é, em si mesmo, a última grande lição da sua envolvência artística. Desprovido de mármores faustosos ou ostentações frias, o seu túmulo foi desenhado com a mesma sobriedade honesta que aplicou em toda a sua produção.

Entre o silêncio cortante e a vigilância dos penedos monumentais que moldaram a sua infância, o Monsenhor regressou a Fajão, sepultado no coração do seu berço, o seu jazigo em xisto não é um monumento à morte, mas sim um marco de permanência. No dia 1 de junho fez 25 anos da sua morte.
Terminar esta segunda etapa do roteiro ali é perceber que o Monsenhor Nunes Pereira fez o caminho completo, nasceu da serra, esculpiu a serra, evangelizou através dela e, agora, nela descansa, gravado para sempre em muitas peças espalhadas por Portugal.
APONTAMENTO GASTRONÓMICO
Pampilhosa da Serra
Enquadrado pela Serra do Açor e a Serra da Lousã por onde parte do Zêzere serpenteia, o município da Pampilhosa da Serra encontra na montanha, na floresta e na pastorícia parte da sua identidade gastronómica. O maranho é o seu cartão de visita mais singular: bucho de cabra recheado com carne, produtos de fumeiro e arroz, aromatizado com ervas aromáticas das quais se destaca o serpão, uma variedade de tomilho selvagem. O cabrito assado e a chanfana são, naturalmente, também aqui largamente conhecidos.
Dos peixes, destaca-se a truta dos viveiros do rio Ceira, servida em escabeche, ou o “bacalhau de couvada”, uma das mil e uma formas de preparar bacalhau em Portugal e na qual o bacalhau cozido com batatas e couve pencas.
Nos doces, é tigelada é rainha, feita de leite, ovos, açúcar, farinha, casca de limão e canela, indo a cozer ao forno em tigelas de barro. No Natal são as filhós espichadas que são estrelas, existindo mesmo um Festival a elas dedicadas, honrando-se neste a identidade serrana do município.
João Pedro Gomes

