Há semanas em que a nossa identidade coletiva parece pulsar ao mesmo ritmo, convocando-nos para uma reflexão sobre o que verdadeiramente fomos, o que somos e o que nos move. Cruzamos hoje as celebrações do 10 de junho, o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, num momento em que o país se prepara para ver a nossa seleção nacional entrar em campo no Mundial de Futebol. Está quase e não há quem fique indiferente.
À primeira vista, o futebol e as origens de um sacerdote-artista do interior serrano podem parecer universos distantes, mas acredito que não, podem ser apenas as diferentes margens do mesmo rio a que chamamos portugalidade.
Nesta edição, o Correio de Coimbra segue o seu roteiro sobre a arte do Monsenhor Nunes Pereira e faz uma paragem, entendo que obrigatória, em Fajão, na Pampilhosa da Serra. Olhar para aquela aldeia mítica e imaginá-la há 50 ou 60 anos é confrontarmo-nos com a nossa matriz mais pura: o Portugal do xisto, da subsistência rude, do trabalho duro, da falta de cor, do silêncio e da mesa frugal, onde a broa e a fé se repartiam com a mesma dignidade sagrada. Foi dessa rocha e dessa verdade que brotou o génio do Monsenhor, um homem que universalizou a Beira Serra através da arte. É o Portugal da raiz, que não se apaga e que resiste ao tempo.
O Grande Plano convida a subir à serra, contemplar e visitar, percorrer a aldeia e descobrir mais sobre o padre artista. Ainda, um apontamento interessante, e bem português, o que provar e saborear…
Mas Portugal é também o país que sabe fazer da partilha uma festa e que se agiganta quando se une sob a mesma bandeira. Nos próximos dias, quando a bola rolar no Mundial, seremos novamente o povo que se senta à mesa, já não apenas na frugalidade de Fajão, mas nos convívios, nas praças e nas nossas casas, a sofrer e a celebrar por um objetivo comum.
Celebrar Portugal esta semana é honrar a tradição, da religiosidade às lendas, da serra ao mar, da força motriz da fé que nos fez chegar aqui. Os santos populares que, através das suas festas e convívios, nos reúnem e convocam, sendo mais comunidade.
Em cada canto mais escondido há sempre uma história para ouvir, que as férias que se avizinham para muitos possam ser espaço de conhecer o nosso país, as nossas tradições e religiosidade popular, para que permaneçam e sejam este rio de portugalidade que nos une.

