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Brincar com coisas sérias…

Jorge Cotovio

Jorge Cotovio

Junho é um mês propício para brincar com coisas sérias, para “gozar com quem trabalha” (para a Igreja), para pular com os Santos Populares que, com esse ar castiço, dão vida e ânimo a tanta gente – até aos que pouco nos ligam!

Dancemos, pois, com Santo António, com S. João, com S. Pedro.  E ousemos converter também em alegria exterior a tão proclamada “alegria interior” – uma alegria tantas vezes camuflada pelas “caras de vinagre” denunciadas pelo Papa Francisco.

Vamos ser sinceros: a nossa Igreja tem, normalmente, um ar muito “sisudo”. Quebremos, pois, esse ar bolorento e deixemo-nos levar pelo sopro do Espírito – um ar bem arejado que até nos faz levantar os pés e dançar!

Há pouco tempo foi publicado o livro Uma Igreja que ri, de José Eduardo Franco e Cristiana Lucas Silva. Folgo pela iniciativa e pela mensagem subjacente. A Igreja tem de ser mais alegre, os cristãos mais simpáticos e sorridentes. Porque a alegria interior só é visível se a exprimirmos através de gestos bem animados

Com Francisco ainda muito presente no nosso presente (ainda bem!), recordo que na Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate, “sobre a chamada à santidade no mundo atual”, ele dedica um dos capítulos à “alegria e sentido de humor”. O recado começa logo no título: “Alegrai-vos e exultai”, citando Jesus Cristo…

O sentido de humor de Deus...
O sentido de humor de Deus…

A alegria – por vezes “criativa” – deve, pois, comandar a nossa vida e as nossas atitudes.

A Joana, de 4 anos, e o Francisco, de 5 e tal, também gostam muito das brincadeiras do avô. Estando mais perto dele do que os outros três primos, têm muitas oportunidades para o aturar. Calha, às vezes, ser logo de manhã. Enquanto tomam o pequeno-almoço, lembrei-me de aproveitar para rezar com eles a liturgia do dia. Ora os 50 dias após o domingo de Páscoa, através dos Atos dos Apóstolos, foram férteis em nomes “esquisitos”: Barsabás, Silas, Timóteo, Barnabé, Nicodemos, Tito, Teófilo, Galião, Priscila, Áquila, Sóstenes, Apolo, Festo, Félix, Agripa, Berenice… Para não falar em nomes de localidades, como Samotrácia, Antioquia, Tiatira, Frígia, Panfília, Acaia, ou povos antigos como Partos, Medos, Elamitas…

É claro que esses nomes despertaram a sua curiosidade. E porque não cantá-los com a música dos “Parabéns a você”? Que ideia fabulosa!!! Ora vejam:

Sós, sós, sós, sós-te-nes, Sós…

Barnabé, bé, bé, bé, Barnabé, …

Ti, ti, ti, ti-mó-teo, Ti…

Até a Joana começou a alinhar na brincadeira… Mas o Francisco, notando que Paulo aparecia sempre em todas as “histórias” (como eles dizem), não o esqueceu, apesar de ser um nome muito comum:

Pau, pau, pau, pau, pau-lo, Pau…

O sucesso foi tão grande que o Francisco, quando eu parecia esquecido, lá me avisava: “Ó avô, hoje não contas uma história” (ou “hoje não rezas”)?

A dada altura, em que o pai estava no estrangeiro, pergunto eu à Joana em que cidade é que ele se encontrava. Resposta pronta: “Em Antioquia” (mentira)!!! Como Nosso Senhor Jesus Cristo (e Paulo, e Barnabé, etc.) se deve rir às gargalhadas com estas brincadeiras!

Voltemos ao Francisco – não o meu neto, mas o saudoso Papa. Li isto no 7Margens de 22 de maio p.p.: “No livro O Louco de Deus no Fim do Mundo, Javier Cercas conta o seu diálogo com Lucio Brunelli, vaticanista reformado, um dos amigos de Francisco em Roma, que lhe reproduz uma frase do anterior Papa: ‘O sentido de humor é a expressão humana que mais se parece com a graça divina’.”

Também outro Francisco, agora mais conhecido por Leão, na recentíssima Encíclica Magnifica Humanitas,

diz que a Doutrina Social da Igreja “identifica caminhos adequados para viver, com alegria e ao serviço do mundo, um límpido testemunho cristão” (n.º 3).

Voltemos a junho, este mês que agora iniciamos. Que bom termos santos a dançar depois do furacão do Espírito Santo. Não será isto um sinal para sermos mais alegres, bem-dispostos e brincalhões? E como tantas vezes um fino e cirúrgico apontamento humorístico não quebra o gelo e resolve situações tendencialmente tensas em reuniões, encontros e desencontros! E como é tão agradável ouvir um presbítero, numa homilia, mostrar esse apurado sentido de humor, até fazendo rir a assembleia dos convocados! Às tantas, este mês de junho, sem nos apercebermos, até nos dá pistas “bem-dispostas” para o ano inteiro…

E, seguramente, a Palavra de Deus também as dá. Ainda no último domingo, Paulo começou logo por nos dizer ”Irmãos: sede alegres”. E Jesus, em Mateus 10,8, noutro domingo (e todos os dias), lá nos dizia: «Recebestes de graça, dai de graça». E eu acrescento: “se possível, com graça”…

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