- Para nos pensarmos

Magnifica Humanitas

Comissão Diocesana Justiça e Paz – Diocese de Coimbra

Comissão Diocesana Justiça e Paz – Diocese de Coimbra - Para nos pensarmos

135 anos após a publicação de Rerum Novarum, a Carta Encíclica com que o Santo Papa Leão XIII procurou responder às feridas abertas pela industrialização, o Santo Papa Leão XIV, seguindo o seu pensamento, apresenta-nos a Carta Encíclica Magnifica Humanitas, novamente perante outra transformação social profunda e responder aos desafios trazidos pela inteligência artificial e as suas consequências para a vida humana, para o trabalho, para a justiça e para a paz.

A distância histórica é grande, mas perante um mundo que muda a uma velocidade que nos ultrapassa, cabe perceber que a urgência de ontem em defender a dignidade dos trabalhadores perante novas formas de exploração, hoje ganha um novo entendimento e relevo, sendo necessário garantir que a inovação tecnológica não dê origem a um mundo de exclusão, vigilância, precarização e domínio por parte de quem controla os dados e as grandes plataformas tecnológicas.

Por isso, a questão que nos coloca é clara: queremos erguer uma nova Torre de Babel, edificada enquanto cidade sem Deus, sem valores, sob o orgulho e a pretensão de se bastar a si próprio; ou queremos reconstruir as Muralhas de Jerusalém, enquanto cidade que renasce através do esforço coletivo, da harmonia que brota quando cada um assume a sua responsabilidade e coloca os seus talentos ao serviço de Deus e da humanidade?

É para responder a esta questão que a Doutrina Social da Igreja continua a ser profundamente atual. Temos de olhar para a vida concreta das pessoas, temos de olhar para o mundo a partir da dignidade (inviolável) da humanidade. Para a Comissão Diocesana Justiça e Paz da Diocese de Coimbra, esta Carta Encíclica vem dar alento ao trabalho já preconizado em torno da Doutrina Social da Igreja, defendendo que nenhuma sociedade pode chamar progresso àquilo que deixa pessoas para trás. Ademais, nenhuma inovação é verdadeiramente humana quando abre um fosso de desigualdades, criando disparidades entre quem detém poder e de quem é, no fundo, explorado.

Partindo do entendimento de que a inteligência artificial pode trazer importantes contributos, como ajudar a melhorar diagnósticos, apoiar processos educativos, facilitar tarefas e ampliar conhecimento, não podemos descurar que pode reproduzir injustiças, tornar invisíveis os mais vulneráveis, reduzir pessoas a dados, enfraquecer vínculos comunitários ou colocar métricas no lugar da dignidade humana.

Magnifica Humanitas convida-nos ao discernimento. Não nos pede que rejeitemos o futuro e que temamos a inteligência artificial, mas que o façamos norteados pelos princípios de justiça social, do bem comum, da paz, da solidariedade e da subsidiariedade.

Num tempo marcado por guerras, pobreza, solidão, crise ecológica, migrações e novas formas de desigualdade, esta encíclica recorda-nos que a grandeza humana não está no poder de dominar, mas na capacidade de cuidar, de escutar com o coração aberto. Esta deverá ser, sim, a nossa bússola.

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