Amor à primeira vista! Poderíamos dizer assim. Mas, na verdade, é muito mais do que isso. No Evangelho de hoje, tudo começa com o olhar de Jesus. Antes de Mateus falar, antes de se justificar, antes mesmo de reconhecer os seus pecados, Jesus já o tinha visto. E naquele olhar estava já presente a misericórdia de Deus.
A Palavra de Deus deste domingo oferece-nos uma das frases mais belas e consoladoras de todo o Evangelho: «Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas os doentes. Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores.»
Estas palavras revelam-nos o coração de Deus. Muitas vezes imaginamos um Deus distante, exigente, atento apenas aos nossos erros. Pensamos que Deus ama sobretudo os perfeitos, os santos, aqueles que nunca falham. Mas Jesus mostra-nos precisamente o contrário. Aproxima-se dos que todos evitam. Senta-se à mesa com os pecadores. Conversa com aqueles que eram considerados indignos. Olha para Mateus, o cobrador de impostos, e vê nele não apenas aquilo que ele era naquele momento, mas aquilo que podia vir a ser. Porque Jesus não vê apenas o nosso passado, vê também o nosso futuro. Não vê apenas as nossas quedas, vê a graça que pode levantar-nos. Não vê apenas os nossos pecados, vê o filho ou a filha amada que continua a habitar em cada coração.
O próprio evangelista refere que Jesus entrou em casa de Mateus e sentou-Se à mesa com ele. É um detalhe cheio de significado. Jesus não começa por fazer um interrogatório nem exige explicações. Não apresenta uma lista de acusações. Primeiro oferece a sua presença, a sua amizade, a sua proximidade. Mateus descobre quem é Deus não através de longos discursos, mas através da convivência com Jesus. Aprende quem é o Senhor partilhando a mesa, caminhando ao seu lado, escutando as suas palavras e contemplando os seus gestos. O conhecimento de Deus nasce do encontro. Antes de ser uma doutrina, é uma relação, antes de ser uma obrigação, é uma experiência de amor.
No passado Domingo da Santíssima Trindade contemplávamos o Deus revelado a Moisés, não um Deus duro como as pedras da Lei, mas «um Deus cheio de misericórdia e fidelidade» (Ex 34,6), um Deus clemente e compassivo, paciente e rico em bondade. Essa mesma imagem reaparece hoje na profecia de Oseias. Deus declara: «Eu quero a misericórdia e não sacrifício.» (Os 6,6). Com estas palavras, o Senhor não despreza o culto nem a oração. O que Ele rejeita é uma religião feita apenas de ritos exteriores, sem amor, sem compaixão e sem conversão do coração. Jesus retoma precisamente esta passagem para responder aos fariseus. Eles conheciam as Escrituras, mas ainda não tinham compreendido o coração de Deus. Sabiam oferecer sacrifícios, mas tinham dificuldade em acolher as pessoas. Cumpriam a Lei, mas faltava-lhes a misericórdia.
Também nós corremos esse risco. Podemos participar na Missa, rezar muitas orações, cumprir os nossos deveres religiosos e, ao mesmo tempo, guardar julgamentos duros, ressentimentos ou indiferença para com os outros.
Por isso, hoje Jesus recorda-nos que a verdadeira medida da nossa fé é a capacidade de amar e de perdoar. O olhar de Jesus transforma os nossos olhares, o seu coração transforma o nosso coração. Quanto mais nos aproximamos d’Ele, mais aprendemos a olhar os outros não pelas suas falhas, mas pela dignidade que Deus lhes concedeu. Conhecer Deus é aprender a ver como Ele vê e a amar como Ele ama.
Para entendermos melhor partilho esta história: Conta-se que um homem visitou a oficina de um oleiro. Enquanto observava o trabalho, viu um vaso cair ao chão e partir-se em vários pedaços. Pensou imediatamente que o artesão o iria deitar fora. Mas o oleiro recolheu cuidadosamente os fragmentos, voltou a trabalhá-los e, com paciência, moldou um vaso ainda mais belo.
Intrigado, o visitante perguntou:
-Porque não o deitou fora?
O oleiro respondeu: -Porque eu não vejo apenas os pedaços. Vejo aquilo que ele ainda pode vir a ser.
Assim faz Deus connosco. Nós vemos os nossos erros, os nossos fracassos e as nossas limitações. Deus vê sempre uma possibilidade de recomeço. Nós vemos feridas, Deus vê oportunidades de cura. Nós vemos portas fechadas, Deus continua a abrir caminhos. Mateus era desprezado por muitos dos seus contemporâneos. No entanto, Jesus olhou para ele e disse apenas: “Segue-Me.” E aquela simples palavra mudou a sua vida para sempre.
Caríssimos irmãos, estai atentos ao Cristo que continua a passar pela vossa vida. Passa nos lugares simples do quotidiano: no trabalho, na escola, na universidade, na família, nos encontros e desencontros de cada dia. Passa quando tudo corre bem e passa também quando a vida parece sem rumo. Passa e olha-nos. Olha-nos com simpatia e ternura. Olha-nos sem desprezo, sem condenação, sem humilhação. E continua a chamar-nos. Por vezes pede-nos que abandonemos certas seguranças, que mudemos de caminho, que deixemos para trás hábitos ou escolhas que nos afastam d’Ele. Nem sempre é fácil. Mas quem se deixa conduzir por Cristo acaba por descobrir que nada se perde quando se ganha o seu amor.
Há momentos em que o desânimo chega. Há momentos em que erramos e nos sentimos indignos. Há momentos em que pensamos que já não somos capazes de recomeçar. Contudo, o Evangelho de hoje garante-nos que nenhuma situação é definitiva quando Deus entra na nossa história. Por isso, esta Palavra convida-nos a nunca desistir de ninguém. Não desistir dos filhos. Não desistir dos pais. Não desistir dos amigos. Não desistir daqueles que se afastaram da fé. E, sobretudo, não desistir de nós próprios. Porque Deus nunca desiste dos seus filhos.
Talvez hoje o Senhor nos peça três atitudes concretas: olhar os outros com misericórdia e não com julgamento; dar uma nova oportunidade a quem errou; acreditar que Deus continua a escrever direito nas linhas tortas da nossa vida. O mundo precisa de menos juízes e mais de corações que saibam acolher, compreender, acompanhar e amar.
Mateus levantou-se e seguiu Jesus. Também nós somos chamados a levantarmo-nos das nossas quedas, dos nossos medos, das nossas desculpas e das nossas acomodações. Cristo continua a passar pela nossa vida. Continua a fixar sobre nós o mesmo olhar que pousou sobre Mateus. Continua a repetir, com firmeza e ternura: «Segue-Me.»
Que tenhamos a coragem de responder com generosidade. E que, ao contemplarmos o rosto misericordioso de Cristo, aprendamos a viver aquilo que Deus mais deseja de nós: «Prefiro a misericórdia ao sacrifício.» Ámen.

