- Enfoque

O preço e o valor

Sónia Neves

Sónia Neves - Enfoque

Costumo ouvir que a “Páscoa não se faz sem amêndoas”, mas este ano, entrar num supermercado para cumprir a tradição exigiu uma dose extra de “abrir cordões à bolsa”. O preço elevado das amêndoas e dos ovos de chocolate saltou à vista de todos, transformando o gesto simples de oferecer um doce num pequeno luxo que nem todas as carteiras conseguem suportar com a mesma leveza de outros tempos.

Todos sabemos que o custo de vida subiu, o cacau está “no preço do ouro” e as prateleiras parecem testar a nossa capacidade de manter o sorriso perante o talão do supermercado. No entanto, se ficarmos apenas pela queixa do custo, corremos o risco de deixar que o “preço” sufoque o “valor”.

A Páscoa que agora celebrámos vem recordar-nos que as coisas mais importantes da vida não têm etiqueta. Se as amêndoas estão caras, a alegria da partilha continua a ser gratuita. Se o ovo de chocolate pesa no orçamento, o abraço do reencontro e o tempo passado à mesa com os que queremos bem tem um rendimento infinito. A verdadeira “doçura” desta época não vem do açúcar refinado, mas da capacidade de percebermos que, apesar das dificuldades económicas e das crises que nos rodeiam, somos herdeiros de uma Vida Nova que ninguém pode comprar nem vender.

Esta Vida Nova, que explode no “Aleluia” da Ressurreição, é o maior investimento que podemos fazer. Enquanto o mercado flutua, a esperança cristã permanece estável porque a vida venceu a morte, a luz dissipou as trevas e cada um é convidado a renascer.

“A fé na ressurreição do Senhor oferece-nos a possibilidade de conhecer mais do que agora vemos, de amar mais do que podemos, de esperar mais do que o resultado daquilo que fazemos”, dizia o Bispo de Coimbra na sua mensagem pascal e que o Grande Plano desta semana convida a ler ou reler.

Ainda as palavras de D. Virgílio Antunes na Missa Crismal que se tranformam em aviso: “não é possível ser cristão sem Eucaristia” e com serviço em concreto. E que maior serviço existe do que dar esperança onde ela parece ter morrido?

O Correio de Coimbra revelou, em Domingo de Páscoa, um Batismo no Estabelecimento Prisional de Coimbra. Enquanto o mundo se distraía com o descanso do feriado, “Miguel”, um jovem que a vida empurrou para as margens, encontrou a “verdadeira liberdade” onde a falta dela é a regra.  Ali, entre o padre Nuno e a Irmã Martinha, percebe-se que as grades podem prender o corpo, mas não impedem o Espírito de soprar. Não foi apenas um recluso que renasceu, acredito que foi a prova viva de que a Igreja sabe ser essa “comunidade”, capaz de ir buscar o irmão que o mundo já tinha desistido de ouvir e ver o seu valor.

Que este tempo de Páscoa que celebramos seja com a abundância do coração, lembrando que a maior riqueza que possuímos é a certeza de que somos amados por um Deus que não faz contas ao que dá. No final do dia, o que realmente importa é que a Vida Nova está aí, disponível para todos, e essa já foi paga com o maior preço de todos: o Amor.

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