A história e o nosso próprio conhecimento pessoal registam inúmeros exemplos do que podemos designar como contradições dos tempos atuais, entre o poder e o ser, seja em termos coletivos ou relações pessoais.
Contradições evidentes e em grande medida incompreensíveis setenta anos depois da aprovação e assinatura da Carta das Nações Unidas, em 26 de junho de 1945 por 50 países, e da fundação da Organização das Nações Unidas (ONU) em 24 de outubro do mesmo ano, com o objetivo principal de manter a paz e segurança internacional, a promoção dos direitos humanos e o fomento da cooperação entre as nações.
Atualmente com 193 países, alguns sem controle efetivo do seu território e de grupos armados ou terroristas (nalguns casos fomentados e alimentados), a existência de membros permanentes com direito de veto – Estados Unidos da América, Rússia, China, França e Reino Unido – tem demonstrado na prática a dificuldade e incapacidade da a ONU assumir o seu papel. Enquanto, por outro lado, importa reconhecer, a existência de grandes poderes económicos internacionais, alguns emanações de estados totalitários, e com intervenção à escala mundial e dificilmente regulados. O resultado em termos de política internacional e a existência para além de forças armadas nacionais, de grupos armados e terroristas, potenciam uma situação de conflitos em que a Carta das Nações Unidas, os Tratados internacionais e o papel de entidades reguladoras se mostra desvalorizado ou mesmo objetivamente desrespeitado e não sancionado.
Em vez de comunidades de nações e estados, muitos de arvoram ter direitos sobre outros em particular que designam grandes áreas de influência, como que valorizando o império “titular” e desvalorizando as nações, com a riqueza da sua diversidade cultural. Em que o encontro de culturas, muito do que foi a época das descobertas, ceda lugar à imposição imperial.
O Papa desafia-nos a rezar e lutar por uma paz desarmada e desarmante.
De igual modo assistimos nas relações interpessoais a um acréscimo de situações de desrespeito mútuo, dificuldade de partilha e respeito pela dignidade humana. Com afirmações de supremacia de grupo, seja do ponto de vista racial, ideológico, social ou outro e, por vezes, revindicando (apenas) ou sobrevalorizando os direitos em relação à assunção e partilha de responsabilidades de responsabilidades.
As incertezas que caraterizam os tempos atuais e a necessidade de encontrar caminhos para vencer a desesperança, recomendam a leitura, oportuna e desafiante, da Carta Encíclica Fratelli Tutti – sobre a fraternidade e a amizade social, em prol da paz mundial e da conveniência comum, publicada em 3 de outubro de 2020.A necessidade de reexaminar as relações sociais e económicas é brilhantemente tratada num editado de 2021 (publicado em Portugal no final de 2025), “O Que Devemos Uns aos Outros” da autoria de Minouche Shafik e que contem propostas sobre como precisamos de nos apoiar uns aos outros – as nossas obrigações mútuas “para a nossa família, a nossa comunidade, o nosso trabalho e os nosso concidadãos”, leia-se a humanidade num mundo globalizado e interdependente, para podermos prosperar, reconhecendo a necessidade de Novo Contrato Social. E onde a autora alerta para o facto de devermos cada mais uns aos outros e que o novo contrato social precisa de ser “mais generoso e inclusivo” e os estados, mais do que serem um estado providência, carecerem de investir nas pessoas e num “sistema de partilha de riscos [e oportunidades] para aumentar o bem-estar”, o que se torna ainda mais premente a coragem e a fé, prepararmo-nos para as alterações tecnológicas (nomeadamente a IA) com impacto tão grande como as guerras e a revolução industrial, em que o amor é mais do que desejo e os receios e esperança precisam de ir lado a lado.

