- Liturgia

«Vivo na verdade?»

IV Domingo da Quaresma (Jo 9, 1-41)
– P. André Sequeira

P. André Sequeira - Comentário à liturgia dominical

O Quarto domingo da Quaresma vem romper um pouco com a ideia e o ambiente de deserto que este tempo nos imprime e, naturalmente, impõe. Rompe porque este é o domingo da alegria: Leatare – Alegra-te Jerusalém!

Hoje, essa Jerusalém somos nós, sou eu e és tu. Somos a cidade que o Senhor visita para nos dizer que Ele quer ser, para cada um de nós, um verdadeiro Pai cheio de amor.

O gesto de Jesus, ao colocar um pouco de lodo nos olhos do cego recorda-nos o gesto criador de Deus, quando “Deus formou o homem do pó da terra e lhe infundiu um espírito de vida” (Gn 2,7). A cura do cego de nascença é, assim, uma nova criação! E os diálogos e confrontos que ele tem com os Judeus tornam-se, para ele, uma espécie de caminho, um processo que o ajuda a abrir pouco a pouco os olhos da fé, olhos que só Jesus pode iluminar. Por isso, esta cura do cego é pois, uma excelente catequese sobre o Baptismo, como nova criação, como sacramento da iluminação cristã. Por ele tornámo-nos “filhos da luz”!  Jesus quer curar-nos a todos das nossas cegueiras. Porque todos precisamos da sua luz para ver a vida com olhos de fé, olhos de esperança, olhos de amor.

A primeira obra da Criação foi a Luz. E Jesus quer criar-nos de novo, lavar-nos, dar-nos olhos novos, acender no coração uma luz, dar-nos uma nova visão. Esta cura é uma operação delicada, feita de muitas perguntas, que passa por várias etapas e por muitos sofrimentos.

Às vezes, as lentes que nos ajudam a ver Jesus são as nossas lágrimas.
Por isso, a fé verdadeira usa lentes progressivas: vamos vendo devagarinho, pouco a pouco, cada vez melhor.

A luz da fé permite-nos ver Jesus, cada vez melhor: Ele é um homem, é um profeta, é o Messias, até chegarmos a ver e a dizer com fé: «Ele é Deus, Ele é o Senhor, Ele é a Luz da minha vida».

Também nós somos chamados a viver a fé como um dom que nos oferece uma nova visão. A luz do olhar de Jesus ilumina os olhos do nosso coração. Ensina-nos a ver tudo à luz da sua verdade e da sua compaixão.

A fé permite-nos reconhecer no rosto do outro a imagem de Deus. Permite-nos entrever, mesmo nas tempestades da vida, a presença discreta de Deus, escondida nas angústias e nas esperanças de tantas pessoas. Mas podemos também perguntar-nos: Estamos cegos, de tal modo acostumados à nossa cegueira, que não pensamos nos efeitos que ela tem sobe os outros?

Somos, no caminho da vida, um perigo para os demais? Apagou-se a nossa luz sem que nos tenhamos apercebido? Pensemos nos demais, e sejamos luz para que outros vejam. Como recorda o Papa Leão XIV na sua mensagem para a Quaresma, este deve ser “Um caminho partilhado”. Percorramo-lo juntos, porque ninguém faz este caminho sozinho; a fé vive-se em comunidade, lado a lado. E procuremos escutar, para fazer silêncio dentro de nós e ouvir Deus que fala ao coração. Escutar também o irmão que caminha ao nosso lado. Jejuar, não apenas de comida, mas de egoísmo, de palavras duras, de tudo aquilo que nos afasta do amor.

Nesta semana, peçamos ao Senhor que nos cure com a sua luz, da cegueira do pecado, daquela cegueira que nos impede de ver o outro com olhos limpos, sem preconceitos, ou que nos faz pensar que a vida do outro não nos diz respeito; que Ele nos cure daquela cegueira, que nos impede de ver para além das aparências, para podermos ver o coração e ver com o coração; que Ele nos cure daquela cegueira que nos faz ver tudo superficialmente.

Aproveitemos este tempo para reencontrar Cristo. Este encontro faz-se sobretudo na oração e na escuta da Palavra de Deus. A oração permite-nos entrar e participar na própria visão de Deus. E pela escuta da Palavra de Deus, Jesus «abre-nos o entendimento», para compreendermos o mistério da Cruz, à luz da Sua Ressurreição.  A Palavra é farol para os nossos passos e luz para os nossos caminhos.

Nós que fomos iluminados pela luz da fé, desde o nosso Baptismo, tornamo-nos filhos da luz. Peçamos hoje a Deus três coisas simples: 1.ª Que nos ajude a ver Jesus, a conhecê-l’O e a reconhecê-l’O na nossa vida; 2.ª Que nos ajude a ver todas as coisas e todas as pessoas com os olhos de Jesus; 3.ª Que faça de nós filhos da luz, que dão frutos de bondade, de justiça e de verdade no amor.Neste IV Domingo da Quaresma, domingo da alegria, podemos perguntar ao nosso coração: “E tu? E eu? Vivo na verdade? Sou imagem da liberdade? Ou deixo-me viver nas trevas, esquecendo que, por amor, Deus enviou o Seu filho ao mundo?”.

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